Empresário sonhava em levar sua empresa a Angola

Sempre elegante, vice-presidente da Fiergs começou a vida como mecânico

Viviane Kulczynski, do Estadão,

18 Julho 2007 | 17h37

Visto de longe, Attilio Sassa Bilibio, de 63 anos, era o empresário elegante, de ternos bem cortados, emoldurados por um par de olhos azul claríssimo e uma brilhante cabeleira grisalha. De perto, era um homem simples. Derrubara mato a machado, trabalhara na lavoura de milho e amassara uvas com os pés para uma boa safra de tintos. Detalhes que o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) se orgulhava de manter no currículo.   Veja também: Lista das 186 vítimas do acidente O local do acidente Opine: o que deve ser feito com Congonhas?  Os piores desastres aéreos do Brasil A cronologia dos acidentes em Congonhas Conheça o Airbus A320 Galeria de fotos Assista a vídeos feitos no local do acidente Conte o que você viu e o que você sabe   E mais: para ganhar uns trocados, encomendara, ainda moleque, por reembolso postal, uns livrinhos com as letras e as músicas de Tonico & Tinoco. Não que fosse fã da dupla. Era só para depois revender a "preciosidade" em festas nas capelas da vizinhança. O ganho era maior que o obtido na lavoura da família. Quinto de oito irmãos, Bilibio trocara, no entanto, a chance de crescer no agronegócio familiar para enveredar por outros caminhos.   Em troca de "comida e mais nada", se colocou à disposição para sujar as mãos de graxa numa oficina mecânica de um tal que nunca tinha visto antes e, depois, foi revender caminhões. Vivia de calcular quanto tempo precisaria para comprar carro e casa. Isso era sinônimo de "ficar rico" para o jovem de Nova Bassano, cidade da Serra Gaúcha. "Pelos meus cálculos, levaria uns 70 anos", se divertia contando. Era tempo demais para quem tinha tanta pressa em aprender e não se importava de mudar de área tão facilmente.   E foi migrando para o ramo da serralheria que entendeu o que era empreendedorismo. Aprendeu o ofício, viu na demanda por janelas basculantes um mercado que exigiria menos que sete décadas de esforço para galgar degraus e ascender.E assim foi, rumo ao sucesso na metalurgia.   Criou a Medabil Sistemas Construtivos em 1967, aos 23 anos, com um empréstimo equivalente na época a US$ 1 mil, tirados do bolso do pai, com a promessa de retorno rápido. E que rapidez. "Bastava jogar com franqueza com o cliente", ensinava a lição que o fez um dos maiores de seu ramo e que o levou a projetar há pouco tempo investimentos de US$ 100 milhões para os próximos três anos.   Até terça-feira, 17, quando embarcou para São Paulo para tratar de negócios (a empresa não quis fornecer detalhes da agenda que cumpriria na cidade), Bilibio ainda comentava com os amigos e a mulher, Lourdes, detalhes da festa dos 40 anos da Medabil, celebrados há menos de um mês com um show da cantora Gal Costa, em Porto Alegre, e o lançamento de seu livro "Como Começar uma Indústria - Com Pouco Dinheiro e Muita Paixão".   Comemorava as marcas impressionantes da empresa quatrocentona e planejava expansão. Queria cruzar as divisas do Sul e chegar ao Sudeste e Nordeste. Queria cruzar as fronteiras e chegar à Argentina. Queria cruzar o Atlântico e se estabelecer em Angola.   O empresário, que não concluiu o ensino fundamental, mas tinha o inglês afiado que os negociadores devem ter, era também um homem de fé. Mas não espalhava. "Dizer que fé e crença são elementos indispensáveis no mundo dos negócios pode provocar reações contrárias entre os que nada crêem", temia. Mas seguiu várias vezes, sem nenhuma vergonha, à cidade de Ibiaçá, só para rezar para Nossa Senhora Consoladora. Dos fracassos eventuais que colheu na vida, ensinava que serviam para começar de novo. E dava mais uma lição: ter apenas certezas trava o pensamento.   Bilibio tinha começado há pouco o processo de sucessão na empresa - dos três filhos, Lires, César e Márcia, só esta não trabalhava com o pai. "O futuro pertence aos sucessores e o fundador cede a sua cadeira tendo a certeza de que o sucesso dos negócios sempre estaria assegurado se fosse à sua maneira, mesmo que não confesse." Era a ironia, a seu modo.

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