Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Empresa espanhola assume Linha 6-Laranja do Metrô e deve entregar obra em 4 anos

Prazo estimado pelo Estado valeria a partir da oficialização do acordo firmado entre a Acciona e o antigo consórcio responsável pela obra

Priscila Mengue e Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 16h56

SÃO PAULO - Paradas desde setembro de 2016, as obras da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo poderão ser iniciadas em breve. A estimativa do gestão João Doria (PSDB) é de que todas as 15 estações e o restante da estrutura sejam entregues em até quatro anos após a oficialização da nova empresa responsável. Em 2008, o Estado chegou a noticiar que a linha começaria a operar de forma parcial em 2012 e integralmente três anos depois.

O contrato da implantação, manutenção e operação da linha foi comprado pela empresa espanhola Acciona do consórcio Move São Paulo, formado pela Odebrecht TransPort, a Queiroz Galvão e a UTC Engenharia, que havia vencido leilão público. Até hoje, o site do consórcio traz o prazo de entrega: 2020.

A linha abrange as seguintes estações: São Joaquim, Bela Vista, 14 Bis, Higienópolis-Mackenzie, Angélica-Pacaembu, PUC-Cardoso de Almeida, Perdizes, Sesc Pompeia, Água Branca, Santa Marina, Freguesia do Ó, João Paulo I, Itaberaba, Vila Cardoso e Brasilândia.

Embora o contrato tenha sido assinado em 2013, as obras de escavação foram iniciadas apenas em abril de 2015 e paradas no ano seguinte. Desde então, o consórcio faz atividades de segurança, limpeza e afins dos espaços. 

A obra inclui 15,3 quilômetros de linha, que abarca 15 estações, totalmente subterrâneas. O custo anunciado em 2013 era de R$ 8,9 bilhões, divididos entre Estado e concessionária. O governo ainda teve custo de R$ 1,7 bilhão, principalmente para desapropriações. 

Segundo estimativas de 2013, a linha deve atender 633 mil pessoas diariamente, com trajeto completo de 23 minutos, ligando as regiões central e norte. Ela teria integração com duas linhas de Metrô (Linhas 1-Azul e 4-Amarela) e outras duas da CPTM (Linhas 7-Rubi e 8-Diamante), ganhando o apelido de “linha das universidades”, por passar pelo entorno de instituições como PUC-SP, UNIP, FAAP, Mackenzie e FMU.

A primeira estação que começou a ser construída foi da Freguesia do Ó, em 2015, com previsão de entrega prevista no ano seguinte. O contrato de concessão era de 25 anos, com seis para implantação e outros 19 para operação e manutenção. 

Em 2013, o então secretário de Transportes, Jurandir Fernandes, disse que estimativa era de entrega para 2018, porque havia uma “cláusula no contrato que prevê remuneração maior ao consórcio em caso de antecipação da entrega”. 

Em 2008, o então governador José Serra (PSDB) disse que as obras começariam em 2010 - ano em que o Estado adiou o prazo em três anos. O início do trabalho só ocorreu em 2015. 

Secretário de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy evitou dar cronograma, mas disse que a avaliação do governo estadual aponta para quatro anos de obras. Segundo ele, o governo foi oficiado sobre a venda da parte da Move na sexta-feira, 8. "O Estado estará participando  (do processo) agora, que o consórcio  formalizou."

Nesta etapa, os documentos serão analisados pelo Estado, que deverá dar anuência ou não à proposta. O secretário disse também que tomará "atitudes que irão precaver problemas". A reportagem procurou a empresa espanhola, que não se manifestou até o fechamento desta edição.

PPP tinha modelo pioneiro

A Linha 6-Laranja foi anunciada como a primeira Parceria Público Privada (PPP) de mobilidade urbana da América Latina, sendo também pioneira pelo modelo greenfield - isto é, que abarca todas as etapas do empreendimento, da obra até a operação.  

"É uma obra que precisa de muito capital por muito tempo", aponta Paulo Dutra, professor de Economia da Faap e da Mackenzie. Ele aponta que o alto custo, a insegurança jurídica e o "risco Brasil" dificultam o interesse de empresas de países como China e Estados Unidos em projetos desse tipo.

O professor comenta, ainda, que uma nova empresa assumir o contrato de outro consórcio não é comum no meio, pois esse tipo de obra envolve empresas grandes e com "know how" na área. Por outro lado, é uma situação prevista em contrato. "Ao mesmo é normal, porque a empresa pode ter um problema de liquidez e ter de sair, de não conseguir cumprir com suas obrigações. E isso é previsto até para que o Estado não fique totalmente dependentende de quem venceu a licitação, o leilão."

O caso da desistência do consórcio Move São Paulo, em específico, esteve mais relacionado com o envolvimento das integrantes com a operação Lava Jato, o que teria dificultado obterem crédito.

Moradores veem anúncio com desconfiança

O anúncio da possível retomada ainda é visto com cautela pela população que vive e trabalha no entorno do ramal. Vizinhos dos canteiros de obras também relatam aumento da sensação de insegurança, por causa das áreas abandonadas.  “Fecharam lojas e desapropriaram casas. Depois abandonaram tudo. Será que vão retomar as obras mesmo?”, indaga a aposentada Ângela Vasconcellos Siqueira, de 80 anos, que mora na Rua Cotoxó, na Pompeia.

“Se der certo, vai ajudar muito a população. Mas eles começam e param obras. Nunca terminam”, disse a vendedora Karine Leite, de 24 anos, que trabalha em uma loja de eletrodomésticos na Rua Venâncio Aires, também na região da Pompeia. Comerciante há mais de seis anos na mesma via, Leide Velames, de 34 anos, lamenta o cenário atual. “Tinha posto de gasolina e muitas lojas. Eles fecharam as portas. Uma tristeza que cria muito transtorno.”

Os tapumes marcam o cenário de abandono. Eles podem ser observados nos imóveis desapropriados para a construção do Metrô Sesc-Pompeia – onde ainda é possível observar a fachada de algumas lojas. Da mesma forma, há só madeiras cobrindo o espaço na Sumaré com a Apinajés, na área da futura Estação Perdizes, e na Cardoso de Almeida com a João Ramalho, futura Estação PUC. Os tapumes ainda surgem, ao lado de muito mato, na área nobre da futura Estação Angélica-Pacaembu, ao lado da FAAP.

E há quem não veja a hora de a obra ficar pronta para facilitar seu deslocamento. A cozinheira Maricleide de Lima, de 45 anos, mora em Pirituba, zona norte, e trabalha na região de Perdizes. “Pego dois ônibus e gasto quase duas horas.”

O auxiliar de vendas Ederson Guimarães, de 43 anos, que mora no Itaim Paulista, na zona leste, relata rotina semelhante. “Se a linha estivesse funcionando, eu gastaria menos tempo. Hoje preciso pegar dois ônibus, um metrô e um trem (da CPTM). Duas horas para vir e duas horas para voltar.”

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública disse analisar permanentemente os índices criminais e as denúncias de moradores para retorientar o policiamento na região. A pasta afirmou ainda que mantém contato frequente com o conselho de segurança do bairro e ainda reforçou a importância de que os moradores registrem boletim de ocorrência em casos de crimes. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.