Empresa de valet usa garagem de prédio de luxo abandonado em Moema

Pessoas que compraram apartamentos antes de a obrar parar, no começo da década, reclamam que sequer podem entrar no edifício

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2010 | 00h00

Ao lado do Parque do Ibirapuera, numa das regiões mais caras da cidade, um prédio de luxo com apartamentos de mais de R$ 1 milhão é fonte de lucro e prejuízo. Perdem dinheiro desde o início da década 14 famílias que compraram os apartamentos do Edifício Saint Croix. A obra parou perto do fim e compradores ainda lutam pelo direito ao imóvel. Por outro lado, faturam pessoas que, sem autorização das famílias, abriram um serviço de valet para usar os três andares de garagem.

Os compradores não podem nem mais entrar no prédio. Olham apenas de fora os apartamentos dúplex de 200 m² e quatro vagas na garagem onde há dez anos sonhavam morar. Hoje afirmam que só entram como clientes pagando R$ 10 para deixar o carro nas primeiras duas horas. As demais valem R$ 1.

Os valores são informados em um cartaz na mesma rua, a Jauaperi, a cem metros de distância. Ali o valet aparece como um oásis num deserto de vagas para estacionar - na maioria das ruas, ou é proibido ou há Zona Azul.

Deixam o carro frequentadores das várias butiques e empresas de Moema. Quem os recebe, de terno, é um homem chamado Márcio, que gentilmente abre a porta para senhoras, logo entrega um recibo e assume o volante.

Nem todos percebem que seus carros - entre eles muitos Corollas, Civics e Mini Coopers - são deixados em um prédio onde jurariam haver famílias morando. A não ser pelas janelas quebradas, portas enferrujadas e pintura rosa desgastada.

O serviço é profissional e conta com walkie-talkies, almofadas com números dos veículos e pelo menos dois ajudantes. Há vagas para mensalistas bem aproveitadas por professores de uma escola de inglês vizinha e desconto de 50% para frequentadores de uma clínica de olhos.

Os compradores dizem considerar o caso um "absurdo" e contam que já denunciaram a situação à Justiça. "Estão usando o que é nosso para ganhar dinheiro. Queremos que eles saiam e nós possamos finalmente assumir o que é nosso", diz o médico Laurentino Mascaro, de 51 anos.

Ele havia dado um imóvel como parte da compra do novo apartamento. "Acreditávamos estar fazendo uma boa compra."

Também compradora, a psicóloga Rosangela Lurbe, de 54 anos, diz que já foi barrada no edifício. "Não posso entrar nem no meu próprio apartamento. O que fizeram lá é irregular."

Ela comprou o apartamento após o casamento da filha para deixá-la morando em um imóvel separado. A solução foi alugar em outro local. Segundo Rosangela, os compradores brigam sozinhos pelo prédio, pois nem a polícia, para quem denunciaram a situação há alguns anos, fez qualquer coisa.

Justiça. Os compradores movem ações conjuntas e separadas para garantir a propriedade de suas unidades e obter autorização para concluir a obra. Hoje o edifício oficialmente ainda pertence à Construtora Cosenza, um dos nomes que a empresa Construtora Darpan assumiu após 2002 - ano para o qual os moradores dizem que esperavam a entrega das unidades.

A maioria conseguiu uma primeira vitória em 2008, quando a 16.ª Vara Cível concedeu-lhes a posse das unidades ante o estado de abandono do edifício. Um dos objetivos é contratar outra construtora para acabar a obra.

Não há uma resolução concreta, porém, em relação às áreas comuns do prédio, o que impede os proprietários de mudarem para o local.

Outra batalha jurídica é contra credores da construtora que tinham dívidas a receber e tentaram penhorar o Saint Croix.

A Construtora Darpan, que pertencia ao empresário Arnaldo Pavan, chamou-se também Darpan Engenharia antes de virar Cosenza. Em 2004, ele se desligou e a empresa foi vendida. Em 2005, virou Cosenza. Um ano depois, uma construtora do Paraná, chamada Construtora Comercial e Industrial, tornou-se sócia. Hoje, os apartamentos do Saint Croix são avaliados em pelo menos R$ 1,3 milhão, segundo a imobiliária Plazza Brasil Imóveis de Moema.

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