Márcio Fernandes/AE
Márcio Fernandes/AE

Emprego segue centralizado, mas custo de vida leva à periferia

14 distritos têm índice superior a 150 empregos por hectare; ficou mais difícil e demorado chegar ao trabalho

Renato Machado, de O Estado de S.Paulo,

03 Abril 2009 | 00h27

SÃO PAULO - O alto custo de vida nas regiões centrais das metrópoles está cada vez mais empurrando a população para as regiões periféricas. Em São Paulo não é diferente. Os dados da OD, com números de 2007, mostram que o centro expandido da capital apresentou variação demográfica negativa em dez anos. Por outro lado, aumentou ainda mais nessa área a concentração de trabalho. O número de distritos com índice superior a 150 empregos por hectare de área, por exemplo, passou de 8 para 14. A consequência é que ficou mais difícil e demorado chegar ao local de trabalho e, por isso, muitas pessoas têm buscado alternativas para amenizar o problema.

 

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O maior fluxo de veículos teve impacto no trânsito e aumentou o tempo que as pessoas gastam no percurso. De acordo com a pesquisa, em muitos locais do centro expandido, as viagens de transporte coletivo passaram a ter duração média superior a 80 minutos. Em toda a Região Metropolitana, o tempo médio passou de 61 para 67 minutos em um intervalo de dez anos - entre as edições de 1997 e de 2007. O crescimento foi de 27 para 31 minutos nas as viagens com transporte individual.

 

“Embora os congestionamentos e o tempo no transporte coletivo atinjam a todos, as classes baixas são as que mais sofrem, pois têm menos capacidade de ajuste”, diz o presidente da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), Aílton Brasiliense Pires.

 

Os dados da OD mostram que a variação demográfica foi superior a 30% em pelo menos 20 dos 39 municípios da região metropolitana. Os especialistas dizem que a maioria é formada por pessoas que saem da capital, mas precisam voltar diariamente a trabalho. No entanto, há uma tendência - embora ainda pouco expressiva - de as pessoas buscarem ficar perto do local onde trabalham.

 

O pesquisador Ricardo Ojima, do Núcleo de Estudos da População da Unicamp, afirma que algumas barreiras atuais estimulam as pessoas a tentar viver perto do trabalho, inclusive mudando de cidade. Ele cita como exemplo os pedágios e, principalmente, os congestionamentos. “Em algumas situações, se torna inviável em termos de tempo e até economicamente. E isso leva a pessoa a escolher por um lado da região”, diz.

 

Foi isso que aconteceu com os Takautes. A gravidez de Rosana provocou várias mudanças na família. Uma delas diz respeito ao tempo que o marido Edson gastava para chegar ao trabalho. O casal morava no Alto de Santana, zona norte da capital, e o engenheiro elétrico percorria quase uma hora e meia de carro para chegar ao serviço, no Itaim-Bibi, na zona sul. “Quando tive meu filho, nós decidimos que isso precisava mudar para o Edson curti-lo mais”, diz Rosana.

 

Mesmo com custo de vida mais caro na zona sul, o casal comprou um apartamento no Itaim-Bibi, a menos de dez minutos da empresa. Edson não conseguia almoçar em casa, mas todos os dias estava com a família no início da noite, independentemente de congestionamentos, chuva ou outros imprevistos da cidade. O que não estava nos planos era a transferência dele um ano depois para Mogi das Cruzes, a aproximadamente uma hora de onde moravam - sem trânsito.

 

“A vontade era de chorar”, brinca Rosana. Apesar de a maioria dos companheiros de trabalho de Edson viajar todo dia para Mogi, a família decidiu mais uma vez se mudar para perto do trabalho dele. Alugaram o apartamento de São Paulo e com o dinheiro bancam a nova casa. Apesar de ainda estarem se adaptando ao ritmo de vida de uma cidade menor, eles pretendem se fixar lá. “Agora sim ele almoça em casa, busca nosso filho na escola. Foi uma escolha forçada, mas agora queremos ficar e curtir a qualidade de vida”, diz.

 

Outras pessoas, no entanto, fazem o caminho inverso. Se nos anos 80 e 90 houve uma tendência de saída da capital em busca de qualidade de vida e segurança, agora as classes mais altas estão voltando para a região central, para fugir dos demorados deslocamentos, segundo o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC de Campinas, Wilson Ribeiro dos Santos Júnior. “Naquele período, na Avenida São Luiz, os imóveis passaram por período de desvalorização. Hoje há retomada dos locais no entorno”, diz.

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