Em volta da vela, dez anos de sambas inéditos

Tradicional roda de músicos e compositores de Santo Amaro, o Samba da Vela completa uma década lançando anônimos que cantam até a luz apagar

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

É uma festa, mas bem poderia ser chamada de ritual. Que roda de samba é essa, em que só se bebe água, não há conversa paralela ("pode acompanhar, pode cantar, só não vale atrapalhar!"), participantes só cantam sambas inéditos de compositores anônimos e cujo final é decretado, sem espaço para reclamação, pelo apagar da chama de uma vela?

Há exatos dez anos começava em Santo Amaro, na zona sul da capital, uma tradição que inspirou dezenas de rodas de samba na cidade e em todo o País - o Samba da Vela, evento que reúne entre cem e 300 fãs-seguidores toda segunda-feira no Centro de Cultura de Santo Amaro, para batucar enquanto durar a chama. Entre 21 horas e 23h30, o público canta junto, num coro afinado e respeitoso, as composições de sambistas desconhecidos, moradores da comunidade que, não fosse a cantoria ao redor da vela, continuariam inéditas. Às vezes, os instrumentos param e se ouvem apenas vozes e palmas - de arrepiar.

"Mais de 300 compositores apresentaram suas obras no Samba da Vela. Ouvir o coro cantar seu samba aumenta a autoestima, fortalece a união que mantém o grupo até hoje", define um dos fundadores do grupo, o técnico em telefonia José Alfredo Gonçalves Miranda, o Paqüera, que em 17 de julho de 2000 criou a comunidade com o sambista José da Cruz, o Chapinha, e os irmãos Magnu Sousa e Maurílio de Oliveira. "Sem o Samba da Vela, a semana começa manca. Não há chance de essa chama apagar tão cedo."

As comemorações do décimo aniversário começam hoje, com o evento "Samba da Vela 10 anos", no próprio Centro de Cultura de Santo Amaro. Em agosto, a vela será acesa no centro, sob do Viaduto do Chá. Para dezembro ainda está previsto o lançamento do segundo disco da Comunidade Samba da Vela. A exemplo do primeiro, lançado em 2005, o novo CD será composto por sambas inéditos, de compositores que apresentaram canções pela primeira vez ao redor do fogo da vela.

História. Uma hora, a festa precisa acabar - eis o motivo de usar a chama como medida. "Nas primeiras reuniões, ninguém conseguia deixar a mesa antes das 4 da madrugada. Aí pensamos em colocar um despertador, um galo, uma ampulheta, até que surgiu a ideia da vela", conta Paqüera, ex-integrante da Ala de Compositores da Vai-Vai. "É o jeito mais delicado de mostrar que acabou."

Para que ninguém perca o compasso, as músicas que estarão no repertório da noite são impressas em cadernos, distribuídos aos presentes - até hoje, cerca de 30 já foram impressos, com mais de 500 canções. "É gente comprometida, que espera a noite toda para ser chamado a mostrar sua música", conta o sambista Chapinha.

São compositores como Afonso de Souza, de 79 anos, que se orgulha de ter duas canções nos caderninhos. Escrevo um pouquinho, sempre canções de samba de raiz, sei batucar e resmungo umas musiquinhas", disse, modesto, o marceneiro aposentado, pouco antes de ser chamado a ocupar a cadeira branca - reservada ao compositor da vez -, de onde cantou, à capela, sua obra De Volta do Trabalho.

Ao longo da noite, outros 12 compositores sentaram na mesma cadeira. No fim, quando a vela se apaga, todos cantam, juntos A Comunidade Chora, hino-despedida de outro samba da vela - uma das duas músicas gravadas pela cantora Beth Carvalho em 2000. "Até hoje, me faz chorar", diz ela. "O povo cantando, se despedindo, emocionante demais."

Serviço

SAMBA DA VELA: CASA DE CULTURA DE SANTO AMARO. PRAÇA FRANCISCO FERREIRA LOPES, 434, TEL.: 5522-8897. TODA 2ª, ÀS 20h30. R$ 5 (OPCIONAL).

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