Em velório, pai de João Roberto chama PMs de 'assassinos'

Segundo o taxista, o 'Estado não tem carta branca para matar ninguém', mesmo que sejam bandidos

Fabiana Cimieri, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2008 | 15h45

Os gritos de revolta do pai, Paulo Roberto Barbosa Soares, de 45 anos, contrastavam com o choro silencioso da mãe, Alessandra Amorim Soares, 35, que se amparavam um ao outro nesta terça-feira, 8, durante o cortejo ao corpo do menino João Roberto Amorim Soares, que foi enterrado à tarde, no Cemitério do Caju, na região portuária do Rio. O menino, de 3 anos e 11 meses, foi sepultado com a fantasia do Homem Aranha, seu herói preferido, e que seria tema da festa do seu quarto aniversário, no dia 29.  Veja também:Duas crianças do Rio devem receber córneas de João RobertoPMs que atiraram em garoto são indiciados por homicídio doloso Ele foi morto por policiais militares que abriram fogo contra o carro em que estava com a mãe e o irmão mais novo, Vinícius, de 9 meses, no domingo à noite, na Tijuca, na zona norte do Rio. As investigações mostram que o carro de Alessandra teria sido confundido com bandidos que estavam sendo perseguidos pelos PMs.  O taxista Paulo Roberto, pai de João, chegou por volta das 15 horas ao cemitério. Ele se dirigiu direto à capela onde estava sendo velado o corpo do menino e, com as portas fechadas, podia-se ouvir seus berros: "são uns assassinos, são uns assassinos", referindo-se aos policiais militares que atiraram no carro em que sua família estava. "O Estado não tem carta branca para matar ninguém. Aqui não tem pena de morte. Mesmo que fossem bandidos, qual é o problema? Que prendessem os bandidos", desabafou.  A avó materna, Cirene, que sofre de hipertensão, passou mal e chegou a desmaiar diante do caixão do neto. Foi levada por amigos para uma outra capela, onde a mãe Alessandra, permanecia para fugir do assédio da imprensa. Poucos minutos antes das 17 horas, quando estava previsto o enterro, Alessandra deixou o local onde estava e atravessou o corredor atraindo atenção de repórteres e fotógrafos que cobriam o enterro. Houve tumulto e empurra-empurra de parentes e amigos, que tentavam protegê-la. Durante o cortejo, a mãe permaneceu com os olhos distantes e chorando baixo. Por duas vezes ela parou para respirar mais fundo, como se lhe faltasse ar. Na hora em que o corpo descia à sepultura, o pai disse, chorando: "Você não merecia isso, foi uma covardia que fizeram com você".  Em seguida, as cerca de 300 pessoas que acompanharam o enterro pediram "Justiça". Os pais e as avós de João Roberto deixaram o cemitério numa ambulância, porque estavam muito abalados. Cerca de cem taxistas da cooperativa Grajaú Service fizeram uma carreata até o cemitério.  Apoio Além de parentes e amigos da família de João Roberto, pais de outras vítimas da violência também acompanharam o enterro. "Não são casos isolados. Já está virando rotina. Não queremos desculpas, queremos solução", disse o pai do trocador Claudio José Pinheiro, 20, José Amandes Pinheiro da Costa. Seu filho foi morto por uma bala perdida disparada pela polícia na semana passada, em Del Castilho, na zona norte. "Senhor governador Sergio Cabral Filho: quando for o seu filho, não vai ser um caso isolado", disse ele.  Os pais da menina Gabriela Prado Maia, morta no metrô da Tijuca por uma bala perdida disparada por um policial, há cinco anos, Carlos Santiago e Cleide Prado Maia, também foram prestar solidariedade à família de João Roberto. Para Cleide, a população está ficando mais consciente de que precisa se mobilizar mais para combater a violência: "Não adianta só lamentar mais uma vida indo embora", afirmou. A ONG Rio de Paz homenageou João Roberto soltando um balão vermelho no céu, logo que seu corpo foi enterrado. Atualizado às 19h55

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