Em uma só manhã, 82 jovens são enterrados

Soldados do Exército fizeram operação especial e contaram com a ajuda de pedreiros voluntários para preparar os túmulos

DIEGO ZANCHETTA, ENVIADO ESPECIAL, SANTA MARIA, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2013 | 02h05

O sol ainda não tinha surgido em Santa Maria quando um batalhão quase inteiro do Exército entrou no Cemitério Ecumênico Municipal. Por volta das 6 horas de ontem, com lanternas e lâmpadas improvisadas em pequenos interruptores móveis, cerca de 150 soldados tiveram a difícil missão de preparar 79 covas para enterro coletivo de 82 jovens - a vítima mais velha da tragédia sepultada no local ontem tinha 27 anos.

Os militares contaram com a ajuda de dezenas de pedreiros voluntários que ajudaram a preparar o cimento usado para fechar os túmulos. Eram 9 horas quando entraram os dois primeiros corpos, dos irmãos Pedro e Marcelo Silva, de 18 e 21 anos.

A postura sisuda de alguns soldados que estavam na entrada do cemitério desabou quando o pai dos garotos, Manuel da Silva, de 54 anos, gritou aos prantos: "Eu não quero enterrar meu filho, por favor, eu não quero enterrar ele".

Em poucos minutos o maior cemitério de Santa Maria parecia concentrar toda a dor de um povo sempre orgulhoso de sua população estudantil - a cidade de 300 mil habitantes tem cerca de 7 mil estudantes universitários em 26 cursos de graduação. "Esses jovens que tornam a cidade alegre e sempre cheia de festas. Olha agora quantos deles estão sendo colocados na gaveta de uma parede", apontava em direção aos túmulos de parede do cemitério o taxista Alfredo Falk, de 61 anos, que perdeu um sobrinho de 17 anos na festa, estudante de Agronomia.

Gritos. Era comum ver parentes tentando retirar os pais da frente dos túmulos após o enterro. Os gritos de desespero e inconformismo ecoavam em cada corredor do cemitério. Mais de 20 pessoas foram retiradas do local em ambulâncias, após passarem mal.

Mesmo quem não tinha conhecido ou parente entre os mortos foi prestar sua homenagem. "Essa gurizada era como nossos filhos, a gente via eles na lanchonete, na rodoviária, nas ruas. Santa Maria sempre acolheu essa juventude que sai de casa na esperança de buscar novos rumos na vida. É por isso que é tão dolorido para nós todos", dizia o farmacêutico Lourival Palmas, de 39 anos.

Luto. Nas ruas da cidade, quase todo estabelecimento comercial tinha uma fita preta na porta, em luto pelos mortos. Freiras de conventos de várias regiões do País também chegaram no início da tarde de ontem à cidade, para tentar confortar parentes que não queriam arredar pé do cemitério após o enterro de seus filhos. "O pai que enterra um filho nessas condições demora anos para aceitar o que houve. Muitos não vão conseguir retomar sua vida jamais", avaliava a freira Nilda Jardim dos Santos, de 61 anos, de Cruz Alta.

O soldado Felipe Bussi, de 20 anos, lamentava a morte do amigo Leandro Nunes, soldado da Base Aérea de Santa Maria, conhecido como Carioca. "Era um cara gente fina, servimos juntos. Muito dolorido", falou o soldado.

Honras militares. Cinco militares da Aeronáutica, mortos no incêndio que atingiu a boate Kiss, foram enterrados ontem com honras militares. Um deles, o primeiro sargento Luiz Carlos Ludin de Oliveira, foi sepultado no cemitério Santa Rita, em Santa Maria.

Oliveira morreu ao lado dos amigos, os soldados Giovani Krauchemberg Simões, Leandro Nunes da Silva, Rodrigo Dellinghausen Bairros Costa e Rhuan Scherer de Andrade, todos lotados na Base Aérea de Santa Maria (Basm).

Costa e Andrade foram enterrados no município de São Sepé. A Força Aérea Brasileira (FAB) não confirmou as cidades de Simões e Silva.

Em Santa Maria, a cerimônia de enterro do primeiro sargento contou com a presença de oficiais e familiares. Depois de uma saraivada de tiros de fuzil e um minuto de silêncio, o caixão foi coberto pela bandeira do Rio Grande do Sul. Já a bandeira nacional foi entregue à sua viúva.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.