Em uma década, categoria quase não teve ganho real

Reajuste ficou abaixo da inflação em alguns anos; empresas dizem que aumentos nos valores de benefícios compensam

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2014 | 02h04

Protagonistas da paralisação que atingiu boa parte da capital paulista na última semana, os motoristas e cobradores de ônibus praticamente não receberam aumento real entre 2003 e 2012. Nesses dez anos, os reajustes apenas cobriram a inflação do período. Por outro lado, o repasse que a Prefeitura fez às empresas de ônibus cresceu 123%.

Cálculos feitos pelo economista da consultoria LCA Francisco Pessoa Faria a pedido do Estado mostram que o aumento real do valor de cada hora trabalhada por esses profissionais foi de 3,85% no reajuste negociado neste ano, um porcentual abaixo do esperado por parte da categoria, que decidiu cruzar os braços após uma assembleia sindical aprovar o porcentual.

Em relação ao salário de junho de 2003, o aumento real foi de 11%, se reajustados os valores pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Na época, os motoristas recebiam R$ 5,14 por hora trabalhada. Já os cobradores, R$ 2,96. Valores que, hoje, equivalem a R$ 9,19 e R$ 5,29, respectivamente.

"Os ganhos reais mais fortes começaram nos últimos dois anos. Durante muito tempo, eles estavam tendo apenas o aumento da inflação, com reajustes abaixo da média do mercado", afirmou o economista.

Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss), é preciso ponderar que, em algumas convenções coletivas entre a categoria e as empresas ao longo da década passada, houve ganhos maiores em outros itens dos trabalhadores, como o vale-refeição (VR) e a cesta básica.

"Tem ano que se dá mais (reajuste) porcentual e menos benefício. Por exemplo, em 2005 e 2007 não houve reajuste do vale-refeição. Então, você sobe um pouquinho o porcentual. Ano a ano é um compromisso que se busca, aumenta de um lado e diminui de outro", disse o presidente do SPUrbanuss, Francisco Christovam.

Fila mais lenta. No entanto, o reajuste salarial ficou abaixo da média de todas as categorias pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Em 2006, por exemplo, os motoristas e cobradores conseguiram só 2,5% de reajuste (que não cobriu a inflação). Naquele ano, 96% das negociações salariais avaliadas pelo Dieese garantiram manutenção de poder de compra e 86% obtiveram aumento real. No ano passado, esses índices foram de 94% e 87%, respectivamente.

Para o economista Heron do Carmo, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), essa situação traz consequências práticas para o setor. O profissional vê que o seu poder de compra não sobe ao longo do tempo e começa a procurar atividades em outras áreas, o que aumenta a rotatividade. "É como você estar no trânsito, em uma fila com o ritmo mais lento que os outros. Você está andando, mas vê todo mundo te passar."

O economista Francisco Carlos dos Santos, da Macro Forecast, confirma que os reajustes praticados no período valeram praticamente só para cobrir a inflação. "Mas teve período em que eles perderam." / C.V.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.