Em um ano, cinco escândalos abalam a Segurança Pública de SP

Crise da Segurança Pública se agrava ainda mais com a descoberta de uma máfia que fraudava CNH no Detran

Gustavo Miranda e Italo Reis, estadao.com.br

06 de junho de 2008 | 20h51

A decisão da Justiça de mandar prender dois delegados, um acusado de tráfico de drogas e outro com ligação direta às últimas denúncias sobre a existência de uma máfia para a falsificação de carteiras de habilitação, amplia ainda mais a crise em que se encontra a Polícia Civil de São Paulo, sob a gestão do governador José Serra (PSDB).    Desde julho do ano passado, pelo menos quatro escândalos atingiram diretamente os civis e um outro também causou estragos na imagem da Polícia Militar. Na seqüencia, eles são: Caso Chokr, Caso Pórrio, Matadores do 18º, Achaques ao PCC e, por fim, a história da Máfia da CNH. Veja abaixo um resumo dos últimos escândalos que atingiram diretamente a Secretaria de Segurança Pública:   25/7/2007 - Caso Chokr e os caça-níqueis  Escutas realizadas pela Polícia Federal confirmaram que o advogado Jamil Chokr levava dinheiro para pagar propina a policiais civis de São Paulo quando sofreu um acidente na Marginal do Tietê, no dia 25 de julho de 2007. As conversas foram gravadas pelos agentes durante as investigações que resultaram na Operação Xeque-Mate, no dia 4, e flagraram advogados e empresários de São Paulo ligados à máfia dos caça-níqueis comentando a descoberta de dinheiro e documentos no carro de Chokr.  Entre os papéis havia uma lista de propina que parte da cúpula da Polícia Civil tentou desqualificar, levantando a suspeita de fraude contra os policiais militares que a apreenderam. Antes das escutas feitas pela PF, a apreensão de documentos no escritório e na casa do advogado já tinham reforçado os indícios de que a lista discriminava propinas. Nas conversas gravadas pela PF, surgiram nomes, como o do empresário Raimondo Romano. Dono da empresa Multiplay, fornecedora de peças para máquinas caça-níqueis, Romano está há quase 20 anos no ramo de diversões eletrônicas. Começou com fliperamas. Uma de suas conversas com um homem identificado como Xuli ocorre minutos depois de a notícia sobre o material apreendido com Chokr ter sido divulgada. Um motociclista tentou roubar o advogado que, ao fugir, bateu seu Vectra blindado. Quando o socorreram, PMs acharam a lista de propina e R$ 27 mil em envelopes endereçados a 29 distritos e delegacias seccionais de São Paulo. Havia até bilhetes com pedidos aos policiais de cada delegacia, como "por enquanto, parem de bater", endereçado à 6ª Seccional (Santo Amaro). 25/10/2007 - Pórrio e os achaques  Os achaques de policiais à quadrilha do megatraficante colombiano Juan Carlos Abadía é outro escândalo que atingiu a Polícia Civil de São Paulo. O delegado Pedro Luiz Pórrio (foto) foi preso acusado não apenas de extorquir o colombiano, como também de achacar um traficante de Campinas. Aliás, o esquema repetiu a estratégia denunciada por cúmplices do megatraficante. Na cartilha do grupo, estão ameaças a mulheres dos traficantes, uso do poder de polícia para levantar dados, intimidar, torturar e espancar.  A primeira acusação contra Pórrio é relacionada à época em que o policial chefiava a Delegacia Seccional de Osasco, na Grande São Paulo. O empresário Daniel Braz Maróstica, operador de Abadía em São Paulo, contou em depoimento que teve de deixar um carro importado e dinheiro com policiais do Denarc para conseguir a liberação da mulher, Ana Maria Stein. No depoimento, diz que em julho de 2006 Ana telefonou para dizer que fora levada por policiais. Encaminhado ao Denarc, viu a mulher "nervosa, pálida, trêmula e desesperada" isolada em uma sala. Em seguida Pórrio teria extorquido dinheiro do empresário e liberado Ana sem registrar ocorrência - o delegado disse que foi só uma "averiguação". Segundo denúncia do Ministério Público, em 21 de setembro, Pórrio e seus investigadores foram a Campinas, em três viaturas, à procura de José Silas Pereira da Silva, acusado de envolvimento com tráfico de drogas. A polícia local não foi informada sobre a operação. Silva foi encontrado e levado para a casa da Rua Direitos Humanos, onde mora a irmã dele, Jucileide Pereira da Silva. Os policiais não tinham mandado. No imóvel, os investigadores encontraram uma espingarda. A tortura teria começado após a apreensão da arma. Os policiais queriam que os irmãos dissessem onde escondiam drogas e dinheiro. Silva levou socos e pontapés e foi sufocado com saco plástico. Ele desmaiou. Segundo as denúncias, a irmã dele também foi agredida com tapas, socos, e chutes pela investigadora Regina dos Santos, a única mulher na equipe de policiais. Os torturadores também colocam saco plástico na cabeça de Jucileide. Silva recobrou os sentidos e, ao presenciar as agressões à irmã, revelou o endereço de sua casa. Ainda sem mandado, os policiais foram à casa de Silva, na Chácara 6 da Rua Valter Machado de Campos, Jardim Monte Belo. A mulher dele, Érika Cristina Ferreira, se recuperava de cirurgia. Ela foi ameaçada e trancada no banheiro. Num dos cômodos da casa, os investigadores encontraram R$ 34.962,00. Depois localizaram mais R$ 5 mil. Também se apoderaram de um veículo Gol. O dinheiro foi escondido numa viatura. Insatisfeitos, os investigadores ainda queriam mais R$ 200 mil. Mas não conseguiram o dinheiro. Os policiais foram ainda à casa do eletricista Luiz César Alves,amigo de Silva. Também segundo as denúncias, Alves foi torturado e obrigado a cavar buracos na casa. A intenção era achar drogas. Alves levou pontapés, golpes de enxada e foi sufocado com o saco. Os policiais só não sabiam que a PF monitorava amigos de Silva. Os crimes de tortura, roubo e extorsão vieram à tona.  16/2/2008 - Matadores do 18º  O coronel da Polícia Militar, José Hermínio Rodrigues, foi assassinado na manhã de 16 de janeiro deste ano, com cinco tiros. Ele estava andando de bicicleta quando um homem chegou em uma moto preta e o matou, na Avenida Engenheiro Caetano Alvares, Jardim Elisa Maria. O coronel comandava o 18.º Batalhão e investigava a formação de grupos de extermínio por policiais da zona norte de São Paulo. Ele também atuava no combate à máfias dos jogos e chacinas na região. Hermínio sabia que corria perigo por fazer esses enfrentamentos, pois estava incomodando grupos criminosos, e comentou isso com colegas da Polícia Civil. O coronel recebia telefonemas com ameaças depois que iniciou o combate ao crime na zona norte. Desde a morte de Hermínio, ao menos sete policiais foram presos, acusados de envolvimento com o assassinato do coronel ou com o grupo de extermínio investigado por ele. O governador de São Paulo, José Serra, admitiu a existências desses grupos e anunciou o combate. O comandante geral da Polícia Militar, coronel Roberto Antonio Diniz, no entanto, afirmou, um dia depois, que não existem provas para estabelecer vínculos das chacinas com grupos policiais, principalmente do 18.º Batalhão. O corpo do coronel, divorciado e com um filho de 8 anos, foi enterrado no dia seguinte ao assassinato. Ele formou-se aspirante oficial na Academia do Barro Branco em 1980. Concluiu em 2001 o Curso Superior de Polícia, exigido para policiais que pretendem se tornar coronéis. Em março deste ano, uma escola municipal no Jardim Elisa Maria recebeu o nome de Hermínio. 30/4/2008 - Achaques ao PCC Os achaques ao Primeiro Comando da Capital (PPC) foram descobertos depois que a ex-mulher do investigador da Polícia Civil, Augusto Pena, entregou CDs com escutas telefônicas feita pelo policial e outros documentos. Pena e o também policial José Roberto Araújo são acusados de terem seqüestrado por dois dias, em 2005, o estudante R.O, enteado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. O jovem foi liberado após o pagamento de R$ 300 mil de resgate.  Ambos foram afastados das ruas, suspeitos do crime. Em 2007 foram reintegrados ao serviço, após suposta ordem do então secretário-adjunto de Segurança Pública, Lauro Malheiros Neto. Depois que a polícia obteve as escutas, Pena e Araújo foram presos, no dia 30 de abril, em operação do Ministério Público Estadual, sob a acusação de extorquir a cúpula do PCC.As escutas entregues a polícia indicam que os ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006 foram provocados por extorsões e seqüestros feitos por policiais a integrantes e familiares do grupo. Alguns dias depois da prisão, Malheiros Neto pediu demissão. A queda dele se deve ao possível envolvimento dele com os dois policiais presos. Apesar de conhecer Pena, Malheiros negou qualquer envolvimento, e disse que se demitiu para se defender das acusações de que colaborou com o policial preso, feitas pelo delegado Nelson Silveira Guimarães. 3/6/2008 - A Máfia do Detran  A Máfia da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) começou a ser investigada em março. O Departamento de Trânsito (Detran) de São Paulo começou a fazer uma malha fina, bloqueando a habilitação de 19 mil motoristas do Estado e investigando 200 auto-escolas suspeitas de fraudes para obtenção e renovação das CNHs na região metropolitana da capital. A quadrilha por trás da máfia foi desbaratada no dia 3 deste mês, pela Operação Carta Branca. Foram presas 19 pessoas acusadas de envolvimento da máfia, que conseguia habilitação até mesmo para analfabetos. Depois disso, dois delegados e um corregedor do Detran caíram. Na sexta-feira, 6, chefe da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Ferraz de Vasconcelos, delegado Fernando José Gomes, foi preso, acusado de também estar envolvido com a máfia. O Detran também anunciou o afastamento de 14 delegados de Ciretrans da Grande São Paulo e da Baixada Santista. A máfia pagava propinas para manter corrupção que fornecia habilitações para motoristas de todo o País. Os motoristas que compraram as CNHs também serão investigados e podem ser presos.

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