Em tragédias, revolta e indignação se misturam ao luto

Análise: Daniel Martins de Barros

É COORDENADOR MÉDICO DO NÚCLEO DE PSIQUIATRIA FORENSE, PSICOLOGIA JURÍDICA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2013 | 02h00

Quando a morte surge subitamente, como no caso do incêndio de Santa Maria, a dor da perda parece ser multiplicada. O grande número de vítimas, o fato de serem jovens e o agravante de haver responsáveis diretos pela causa das mortes são fatores que podem agregar revolta e indignação ao luto dito "normal".

A reação emocional à perda de alguém próximo é natural e é esperado que a pessoa se sinta triste, angustiada, não raras vezes revoltada, experimentando desinteresse pelas coisas e até mesmo pensamentos de morte. Tais sintomas, no entanto, tendem a ser passageiros e, em mais ou menos tempo, o enlutado aprende a lidar com a situação.

Segundo a cientista Phyllis Silverman, pesquisadora dedicada ao tema, não é que o luto seja superado: "A perda permanece com você, mas você se acomoda e segue com a vida, transformada pelo que aconteceu".

Não existe tratamento para o "luto normal", até porque ele não é uma doença. Os fatores que mais podem ajudar nesses momentos são a presença de uma rede de suporte social e familiar e alguma fé religiosa.

Há casos, no entanto, em que as pessoas não conseguem seguir em frente. Nesse luto complicado, há uma permanente sensação de perda de sentido na vida - a angústia e a inconformidade com a morte não cedem, fazendo com que a dor pareça não diminuir ao longo do tempo. Surge uma inquietação constante e a confiança nos outros diminui, levando a pessoa a se isolar, reduzindo suas chances de pedir ajuda para lidar com tal situação. Nessas ocasiões, é necessário tratamento específico.

Mortes violentas e súbitas, como as decorrentes de tragédias, apresentam maior risco de serem seguidas por lutos complicados. Não se pode saber de antemão, no entanto, como vai evoluir cada uma das famílias afetadas pelo incêndio de Santa Maria. Por isso, o melhor a fazer agora é estar presente oferecendo suporte. Isso permite amparar quem precisa apenas de apoio e ao mesmo tempo identificar precocemente aqueles que necessitarão de tratamento.

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