Em Tel Aviv

Da mesma forma que em São Paulo acontece hoje a Parada Gay, Tel Aviv, centro financeiro de Israel, terá na próxima sexta feira o principal evento do gênero no Oriente Médio - parte do mundo em que a questão da diversidade sexual (e da própria sexualidade) ainda é permeada de proibições, violências e preconceitos. Pequena em relação à versão paulistana, que espera receber hoje 4 milhões de pessoas (metade da população de todo o país aqui), a versão israelense aguarda 100 mil visitantes.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2013 | 02h00

Uma das principais artérias da cidade, a Avenida Ibn Gvirol, está enfeitada há uma semana com centenas de bandeira do arco-íris. Mas Tel Aviv é uma cidade única, à parte. Moderna, muito mais identificada com a Europa do que com a Ásia, aqui casais gays namoram livremente pelas ruas há décadas. O mote da celebração deste ano, diferentemente de outras partes do mundo, como no Brasil, em que ainda se luta por questões políticas fundamentais e garantia de direitos humanos, é "Seja único", ressaltando a importância da individualidade e da diferença, um avanço na construção da identidade gay. Mas Tel Aviv não é o retrato do país. Em Jerusalém, por exemplo, cidade com crescente população de judeus ortodoxos, a situação é mais complexa.

O caderno de variedades deste fim de semana do jornal Haaretz, um dos mais importantes daqui, traz uma ampla entrevista com o rabino americano Steven Greenberg, de 57 anos, ortodoxo e gay. Ele se casou há um ano em Nova York com Steven Goldstein, cantor de ópera. Os dois tem uma filha de 2 anos e meio. Vivendo entre Estados Unidos e Israel, ele tem lutado por direitos e conquistas para religiosos gays, dentro de uma das comunidades mais tradicionais e menos permeáveis às mudanças do mundo contemporâneo. Greenberg esteve em Jerusalém na última semana para lançar a primeira versão em hebraico do livro que publicou há uma década nos EUA (Wrestling with God & Men: Homosexuality in the Jewish Tradition, algo como Lutando com Deus e Homens: Homossexualidade na Tradição Judaica), que ganhou diversos prêmios mundo afora.

Quando Greenberg assumiu publicamente sua homossexualidade, em 1999, outro rabino da universidade religiosa em Jerusalém, em que os dois se formaram, disse que um rabino ortodoxo gay era tão paradoxal quanto um rabino que come cheeseburger (a norma culinária judaica proíbe misturar leite e carne) em pleno Yom Kipur (Dia do Perdão, a festa mais sagrada para os judeus, em que deve ser respeitado um jejum de 24 horas).

No Brasil, um episódio ocorrido na última semana, que pode ter passado batido para muita gente, chamou a atenção. Um professor substituto do curso de Ciência da Computação e Sistemas de Informação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), de 24 anos, publicou no Facebook uma série de comentários preconceituosos.

Após ter visto pichações com temática gay na universidade, escreveu frases impublicáveis e defendeu o fechamento de cursos formadores de "gente colorida" e "bichonas". Termina com "Depois eles tomam uma surra, morre um viado lá no câmpus, sai no jornal e pronto!".

O professor, que ainda faz mestrado na Federal, poupou a universidade de uma decisão, desculpou-se e pediu demissão um dia após o escândalo vir à tona. Mas será que a demissão basta? Será que ele consegue perceber a gravidade e incongruência de suas manifestações? Será que ele reflete que o professor tem uma responsabilidade social ímpar? Será que ele sabe que pode ter alunos gays? Será que percebe que, mesmo no mundo das Exatas, onde trafega, a orientação sexual não define dignidade, capacidade e habilidade?

Pois é, caro professor, hora de fazer o dever de casa! E hora de as Federais repensarem seu processo moroso e burocrático de concursos e contratações de titulares, que leva muita gente pouco preparada a assumir cargos como substitutos, sem ter condições acadêmicas e emocionais para tanto.

Pelo visto, apesar dos avanços que se vê no Brasil nesse campo, há ainda muita batalha pela frente para garantir direitos iguais (casamento, adoção), respeito e combate à homofobia e à intolerância. Quem sabe, em alguns anos, o País possa celebrar, de forma mais justa, essa Parada do Orgulho Gay?

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