Célio Messias/ Estadão
Célio Messias/ Estadão

Em surto de covid-19, penitenciária de Araraquara tem mais de 370 detentos contaminados

40 presos e 60 funcionários da Administração Penitenciária morreram de covid-19 no Estado até esta quarta-feira, 24, segundo a Secretaria; 45% das mortes de funcionários foram neste ano

Everton Sylvestre, especial para o Estadão

24 de março de 2021 | 17h44

ARARAQUARA – A penitenciária de Araraquara passa por um surto de covid-19: o resultado do exame foi positivo para um em cada quatro detentos que já receberam o resultado da testagem em massa iniciada em 28 de fevereiro. A morte de um detento está entre as três confirmadas pelo município nesta terça-feira, 23. No Estado, o número de funcionários da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) mortos em menos de três meses deste ano já se aproxima do total de mortes de 2020.

 

Dos 1.647 detentos testados na penitenciária de Araraquara e em seu anexo de detenção provisória, 374 tiveram resultado positivo para covid-19 e estão em quarentena. 209 aguardam resultado. Segundo a SAP, 80 estão recuperados. Os exames já foram realizados em 79% dos 2.059 detentos do presídio, que tem capacidade para 1.557 detentos. A testagem, em parceria com a vigilância sanitária do município, prossegue até esta quinta-feira, 25.

Araraquara registrou nesta semana a primeira morte de preso desde o início da pandemia. A prefeitura informou, em nota, que o paciente de 57 anos tinha comorbidade – hipertensão – e deu entrada na UPA no fim da tarde do domingo, 21, com sintomas de falta de ar e resultado negativo para covid-19. 

Segundo a prefeitura, ficou em observação na unidade de saúde, onde realizou mais duas vezes teste para covid-19, apresentando resultado positivo no terceiro exame. Com piora no quadro, foi mantido intubado na UPA à espera de que se estabilizasse para ser transferido, mas morreu na noite de segunda-feira. Segundo a SAP, um funcionário da administração penitenciária morreu na cidade desde o início da pandemia. A morte foi neste ano.

40 presos morreram de covid-19 desde o início da pandemia no Estado, cinco neste ano, segundo o boletim da SAP desta quarta-feira, 24, que ainda não incluía a morte em Araraquara. Em 17 de março, a SAP confirmou a morte de um detento em Hortolândia e um em Caraguá. Em fevereiro, uma morte em Capela do Alto, na região de Sorocaba. No fim de janeiro, uma na capital e uma em Potim, na região de Aparecida.

 

Entre os servidores do sistema penitenciário, a pasta registra 60 mortes no Estado, 27 delas neste ano. Segundo a SAP, as taxas de mortalidade em 2021 estão em 0,34% entre os presos e de 2,28% entre os servidores. Em 2020, foram respectivamente de 0,31% e 1,52%. Desde o início da pandemia, houve 12.976 exames positivos de presos e 3.158 de servidores. A SAP contabiliza 217 detentos com suspeita de covid-19 em isolamento e 259 servidores afastados por suspeita da doença.

O presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Sistema Penitenciário Paulista (Sindcop), Gilson Barreto, alerta para contaminações dentro de presídios em diferentes regiões do Estado e considera que, mesmo na pandemia, há movimentação além do essencial no sistema prisional. Barreto observa que, embora não haja registros estatísticos sobre isso, há familiares de servidores da SAP que morreram de covid-19.

No início da tarde desta quarta-feira, 24, o governo do Estado atendeu a uma reivindicação da categoria, ao anunciar o início da vacinação de policiais e de funcionários da SAP para 5 de abril. Embora a população carcerária esteja entre as prioridades estabelecidas no Plano Nacional de Imunização, não há indicativo de quando começa a ser vacinada.

O secretário de Administração Penitenciária do Estado, Coronel Nivaldo Cesar Restivo, afirma que, em razão do elevado número de casos, as medidas restritivas e de higienização adotadas desde março de 2020 por causa da pandemia foram intensificadas na Penitenciária de Araraquara desde o dia 28 de fevereiro. 

Ele reconhece que a situação nesse presídio é a maior preocupação da SAP neste momento e observa que a penitenciária de Araraquara tem uma equipe de saúde mais completa do que outras unidades, incluindo médicos e enfermagem. “A gente faz busca ativa, com observação permanente da população carcerária para identificação de sintomas e isso justificou nova testagem em massa”, afirma. Segundo o secretário, nas testagens de janeiro, houve um caso positivo. Restivo associa o aumento das contaminações nesse presídio ao recrudescimento da pandemia na região de Araraquara no início deste ano.

 

Nove amostras colhidas de presos e duas de servidores foram coletadas em Araraquara para sequenciamento de cepa e aguardam resultado. Restivo confirma que essa foi a primeira coleta para essa finalidade em presídios do Estado.

 

O secretário afirma que as visitas em presídios chegaram a ser liberadas em novembro, quando a situação da pandemia no Estado apresentava melhora, e que foram novamente suspensas em fevereiro. A suspensão foi feita primeiramente por decisão judicial e depois ratificada por resolução da Secretaria, que já prorrogou a suspensão de 15 para 30 dias. “Nós não comemoramos mortes que ocorram no sistema, seja de servidores, seja de preso. O mês de março tem sido muito ruim para nós em relação a perda de servidores. Lamentamos muitas perdas”, ressalta Restivo.

A infectologista Geovana de Lima, que atende detentos em ambulatório da rede pública de Saúde em Bauru, lembra que o sistema prisional sofre constantemente com outras doenças respiratórias como tuberculose e que, em vários presídios, há estrutura para isolamento inicial. 

“Se o surto é contido dentro do presídio, se faz a quarentena, não há chances de passar para fora. São importantes as barreiras sanitárias por parte de funcionários dos presídios, tais como de funcionários da saúde ao voltar para casa para diminuir a chance de transmissão”, reforça.

 

Ela conta que há situações em que, na prática, os médicos percebem que presos com sintomas respiratórios não foram isolados de outros presos com a agilidade ideal e quando isso ocorre encaminham carta após o atendimento, reforçando orientações a assistência social do presídio. 

“Quanto mais circula o vírus, mais faz mutações e cria novas cepas. Se a circulação é aumentada e está tendo surto, a iminência de uma cepa nova pode acontecer”, pontua, reforçando que isso também pode acontecer fora de um presídio, como vem ocorrendo no Brasil e em outras localidades.

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