'Em SP você pode se estressar e todo mundo entende'

Publicitária fala das 'diferenças culturais' dos paulistanos e diz que se surpreendeu com o respeito às leis de trânsito

Entrevista com

CIDA ALVES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2011 | 09h32

Nada melhor do que boas gargalhadas para pôr fim a uma antiga rivalidade. E humor é o que não falta nas dicas da publicitária Raquel Oguri, de 41 anos, que recheiam o Manual de Sobrevivência em São Paulo: Um Guia para Cariocas e Simpatizantes. No livro que acaba de lançar, ela conta suas peripécias ao deixar a Cidade Maravilhosa e mudar-se para São Paulo, há seis anos.

Carioca da gema, veio morar na capital paulista por causa do trabalho do marido e teve um dos dois filhos aqui. Mesmo fazendo piadas com o jeitão paulistano, garante que o objetivo não é estimular a rixa entre as duas cidades. "Também faço piada com os cariocas. Tudo deve ser levado na esportiva."

O que começou como um guia para conhecer a capital acabou virando "estudo" antropológico, com as impressões de uma carioca em São Paulo. Tudo porque, assim que chegou, Raquel percebeu certa "incompatibilidade" de códigos culturais. Como quando foi a única pessoa que apareceu de canga e biquíni para um churrasco à beira da piscina.

O livro também tem entrevistas com cariocas famosos, como o cantor Lobão e os jornalistas Ruy Castro e Ricardo Boechat, contando suas experiências com São Paulo.

Por que manual para "sobreviver" em São Paulo? Não é possível apenas "viver" na cidade?

Quando cheguei, a sensação era mesmo de instinto de sobrevivência. Não me sentia à vontade. Daí surgiu a ideia de escrever o guia. Mas, à medida que fui conhecendo as pessoas e a cidade, vi que era possível extrair o melhor delas e realmente "viver" em São Paulo. Só que o título se manteve assim até por uma questão de humor, que está presente em todo o livro.

Adaptar-se a São Paulo é tarefa difícil só para cariocas ou qualquer pessoa de fora?

Acho que para quem vem de cidade de praia o impacto do visual e da geografia é maior. Você não tem a referência de horizonte que o mar dá, o hábito de andar com menos roupa e, no caso do Rio, a descontração típica do carioca. O paulistano é mesmo muito mais fechado. Mas com o tempo vi que tem um lado legal nessa loucura toda de cidade.

Como o quê?

Você pode ficar estressado à vontade que todo mundo vai entender. Agora, se você chegar em uma praia no Rio, com aquele mar e aquele sol, e falar que está estressada, vão achar que você está de sacanagem (risos).

Você faz muita piada no livro, principalmente com o jeito paulistano. O guia passou pela leitura crítica de algum amigo de SP?

A primeira revisão foi feita por uma paulistana. A única coisa que ela não gostou foi quando eu disse que o Rio é como uma mulher gostosa, que o que ela tem de melhor está ali para todo mundo ver, enquanto São Paulo é a mulher feia e interessante, que você precisa "ralar" para descobrir seus encantos. Ela achou que eu estava chamando São Paulo de feia! Mas não era isso. E eu também faço muita zoação com os cariocas.

Houve algo que você não esperava encontrar em São Paulo e te surpreendeu?

Humor. Eu tinha a imagem do paulistano sério e descobri que ele tem um senso de humor ácido que eu adoro. Também gosto muito da cultura dos bairros de imigrantes. E, por incrível que pareça, aqui as pessoas respeitam muito mais as leis de trânsito que no Rio. Lá é uma verdadeira terra sem lei.

O que você acha ruim?

O pior é o desenvolvimento destruindo a história da cidade. Casarões da Paulista desaparecendo para dar lugar a prédios. O Rio estava meio decadente há algum tempo, mas hoje a preservação histórica melhorou.

O livro também é um guia?

Andei muito para descobrir lugares legais. Procurei não citar lugares da moda - porque São Paulo é uma cidade de muitas modinhas -, mas aqueles que já têm tradição. Também faço uma descrição de alguns bairros para ajudar quem está procurando lugar para morar. É um guia e uma compilação das impressões dos cariocas sobre a cidade. A mensagem é que as pessoas não devem desistir de São Paulo de primeira e fugir odiando a cidade. O melhor é mergulhar de cabeça e descobrir tudo de bom que ela tem.

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