Em SP, periferia tem mais homossexuais do que áreas ricas

O Censo 2010 demonstra que há mais casais gays vivendo na periferia de São Paulo do que em áreas ricas da cidade. Entre os 30 primeiros distritos que aparecem no ranking do IBGE, há cinco considerados nobres (com 972 casais gays), ante 11 da periferia, onde vivem 1.220 casais - um número 20% maior.

, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

O distrito da periferia paulistana onde há mais casais homossexuais é a Brasilândia, na zona norte. São 127. Logo depois aparecem a Cidade Ademar (122 casais), na zona sul, e a Cidade Tiradentes (116 casais), na zona leste. Já no Itaim-Bibi, por exemplo, vivem 114 casais, e em Moema, também na zona sul, vivem 87 cônjuges.

Em toda a cidade, 7.527 pessoas declararam morar com um cônjuge do mesmo sexo. Os distritos preferidos pelos casais gays ficam mesmo no centro, em uma área onde há espaços de convívio e tidos como de maior tolerância: República (551 casais) e os vizinhos Bela Vista (386 casais) e Consolação (324 casais) encabeçam a lista. Logo depois, aparecem Jardim Paulista (303 cônjuges declarados) e Santa Cecília (293 casais).

"Os dados demonstram que não existe em São Paulo o modelo de gueto: a população LGBT se espalha por todo o território urbano. Mostram também a diversidade de estilos de vida e de classe social dos quais fazem parte esses grupos", diz a antropóloga Isadora Lins França, do Núcleo de Estudos do Gênero Pagu, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Das bordas para o centro, também há um movimento intenso de migrações internas. Mas muitos optam por ficar nos bairros onde sempre viveram, perto da família ou por não ter condições de mudar para o centro."

Foi o que aconteceu com Everton Mendes, de 29 anos, e Cássio Camargo, de 32, que vivem em Itaquera, na zona leste, desde 2005. Dono de salão de beleza, Everton nasceu no bairro, mudou-se para o centro na adolescência, mas resolveu voltar - abriu um negócio e afirma não ter mais vontade de deixar Itaquera. "Hoje até minha mãe mora conosco e estamos na fila para a adotar uma criança, nossa futura filha", conta Everton. "Preferimos a vida mais tranquila do que a agitação do centro. A família toda por perto também ajuda a encarar as dificuldades."

A jornalista Fernanda Estima, de 42 anos, e a fisioterapeuta Juliana Lora de Sá, de 35, decidiram morar no centro. Fernanda vivia na Lapa e se mudou para Santa Cecília com seu filho João Pedro há três meses, quando foi morar com a parceira. "Você se sente mais à vontade na região central, pois tem muito mais gays, lésbicas e travestis. Mas, até por causa disso, é a região da cidade onde mais têm ataques homofóbicos. É uma contradição", diz. Ela conta que quase foi vítima de um ataque no ano passado. "Liguei para a polícia", diz.

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