Clayton de Souza/AE
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Em SP, 'padre' cobra por oração no Cemitério do Araçá

Falso religioso atua com ciência de funcionários do Serviço Funerário

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo,

07 de outubro de 2009 | 10h17

No Cemitério do Araçá, um dos mais antigos da capital, na região oeste, o rito das exéquias - oração de despedida, celebrada em velórios - tem preços que variam entre R$ 50 e R$ 200, cobrados logo após a cerimônia diretamente de parentes do morto. É dinheiro cobrado por um padre que veste paramentos da Igreja Católica Apostólica Romana - a túnica branca até os pés, a estola roxa que cobre os ombros - e fica no cemitério pela manhã e à tarde, com o conhecimento de funcionários do Serviço Funerário Municipal. Acontece que, segundo a Arquidiocese de São Paulo, o "padre", que se apresenta como "monsenhor" Marcos Rodrigues Fontana, nunca foi ordenado, nem tem permissão para realizar celebrações usando vestes eclesiásticas em nome da Igreja.

Desde que a Arquidiocese detectou a atuação de Fontana no Araçá, em outubro de 2008, pelo menos 40 fiéis apresentaram queixas formais à instituição. Eles se dizem "desrespeitados, num momento de instabilidade emocional". Dizem que o padre se apresenta como "católico", procura especificamente fiéis "católicos" e que, ao fim, age como "negociador".

 

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Em julho, o Serviço Funerário criou uma sindicância, que apontou indícios de práticas criminosas, como "cobrança ilegal de donativos sob falsa justificativa de doação para associação". Encaminhado ao Ministério Público Estadual, o caso do falso padre virou inquérito policial em 3 de setembro e é investigado pelo Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap). Os funcionários públicos que interagem com o "monsenhor" - a reportagem o flagrou circulando, de carona, num carro do Serviço Funerário - "ajudaram a elucidar o caso", segundo justificou o Serviço Funerário.

"É um falso padre, charlatão que se aproveita de horas difíceis para tirar dinheiro dos fiéis", afirma o bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, d. Tarcísio Scaramussa, vigário responsável pela região Sé, que encaminhou ofício notificando a Prefeitura sobre a atuação do "padre", em 8 de setembro. "Não haveria problema se ele deixasse claro que é padre de outra religião, de alguma dissidência, mas ele se veste como padre da Igreja (Católica Apostólica Romana) e induz os fiéis a acreditarem nisso."

Batendo ponto no Araçá, na Avenida Doutor Arnaldo, onde são realizados 200 velórios por mês, Fontana celebra ao menos uma cerimônia diariamente - segundo estimativa da Arquidiocese baseada em relatos de fiéis, ele receberia cerca de R$ 3 mil mensais celebrando exéquias no local. "E isso jogando baixo, pois ele pode muito bem atuar em cemitérios de onde ainda não tivemos notícia", disse o bispo.

Em outubro de 2008, as 287 paróquias da cidade receberam nota alertando para a atuação do "monsenhor". "Foi a forma que encontramos de alertar os fiéis", disse o bispo. No cartão que oferece, Fontana afirma celebrar batizados, crismas, casamentos, bodas em residências, sítios, bufês, dentro e fora do País. Para a Arquidiocese, nada tem validade.

SÃO CATÓLICOS?

A abordagem de Fontana, segundo relatos de pessoas cujos parentes foram velados por ele, segue um padrão. Vestindo camisa social com colarinho romano ("de padre"), o "monsenhor" chega cedo, antes das 7 horas, ao saguão do Velório do Araçá, e faz a abordagem. "Minha mãe morreu de madrugada. Era perto das 6h45 quando ele nos abordou, perguntando a hora do velório, se éramos católicos, e dizendo que era padre, que poderia celebrar a oração", conta Vilma Macchione, de 70 anos, cuja mãe, Cristina, foi velada por Fontana no Araçá em 14 de agosto. "Ele perguntou especificamente se éramos católicos."

Terminado o velório - durante o qual, por todo o tempo, trata o morto como pessoa próxima, seguindo informações solicitadas à família antes da cerimônia -, o padre procura o parente e faz a cobrança. Às vezes, não se contenta com o que é oferecido. "Dei R$ 50, bem enroladinhos, na mão dele. Ele escancarou a nota e disse: "Só isso?" E saiu pedindo mais para meu marido", conta Vilma. No fim, da família Macchione, levou R$ 70.

Como justificativa para a cobrança, o "monsenhor" afirma realizar caridade. Diz manter uma creche - "em São Miguel", "em Guarulhos", "em São Bernardo" ou "em Ermelino Matarazzo", o local varia de acordo com a pessoa - e que precisa de dinheiro para chegar lá, de táxi. Outras cinco famílias relataram casos semelhantes, com preços de até R$ 200. "E pensar que ele jogou água benta, cantou Segura na Mão de Deus, é um absurdo", disse a professora Rafaella Dalvia, de 55 anos, cujo irmão foi velado pelo monsenhor por R$ 70. À reportagem, que solicitou seus serviços sem se identificar, ele pediu R$ 80, "para quatro crianças com pneumonia em São Miguel". "Padre nenhum faz assim, parece negociação", disse a professora Célia, que prefere não dizer o sobrenome, cujo tio foi velado por Fontana, por R$ 200.

O padre também alega aos fiéis ter de "pagar aluguel do espaço" ao Serviço Funerário, taxa que não existe. Ao se apresentar como "padre católico", Fontana fere o Código de Direito Canônico, segundo o qual padres não devem fazer cobrança individual pela celebração de ritos e sacramentos - caso os fiéis ofereçam, eles podem aceitar gratificações (chamadas espórtulas) para as paróquias.

Se apresentar como "monsenhor", título honorífico concedido por bispos diocesanos, é outra forma de confundir os fiéis. Em São Paulo, apenas o arcebispo d. Odilo Scherer pode nomear um monsenhor - o que, segundo a Arquidiocese, não foi o caso.

Em sua defesa, o "padre" afirma que "nunca disse" fazer parte da Igreja Católica Apostólica Romana e que é "monsenhor" pela Igreja Católica Apostólica Reunida do Brasil, com sede em Guarulhos. "Esse monopólio não pode ficar com a Igreja Católica Apostólica Romana", disse. "Não enganei ninguém."

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