Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Em SP não há espaço para o Capitão Nascimento

PMs observam que a polícia paulista não se destaca por heróis ou pelo antigo policial de rua valente; principais armas são informação e planejamento

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Primeiro, o capitão implacável sobe o morro para torturar e matar traficantes no Rio. Depois da promoção, como coronel, ele se depara com milícias e políticos malfeitores para novamente bater de frente com o crime - para delírio da plateia que grita e assobia nas sessões do filme Tropa de Elite 2, que neste fim de semana deve ultrapassar a audiência de 5 milhões de pessoas.

Em um cinema de São Paulo, o major Ulisses Puosso, chefe do Centro de Operações da Polícia Militar paulista, assiste ao filme incomodado. Vibra com o enredo, mas lamenta que a história valorize a figura de um policial anacrônico, deslocado dos costumes de seu tempo. Pelo menos na visão da corporação paulista. "A polícia de São Paulo não quer ter heróis. Isso é coisa do passado. Queremos uma tropa formada por homens que sigam os procedimentos esperados e não improvisem", diz.

Para os que assistem a Tropa de Elite 2 em São Paulo, uma pergunta vem imediatamente à cabeça: quais as semelhanças e diferenças entre a polícia e o crime nas duas cidades? Em busca de explicações, o Estado conversou na sexta-feira sobre segurança pública com seis policiais militares de São Paulo - quatro oficiais e dois sargentos.

Na sala de gerenciamento de crises, a conversa transcorreu em torno de mudanças que vêm sendo adotadas na corporação desde 1998 no combate e prevenção ao crime. Em um ponto todos concordam: não há espaço para um Capitão Nascimento na cidade e no Estado.

Mudanças. Acelerada pelas crises sucessivas nos anos 1990, com escândalos de violência como o Massacre do Carandiru em 1992 e os espancamentos na Favela Naval em 1997, a mudança de conceito na PM paulista começou a ganhar forma em 1998, inspirada nos mapeamentos criminais que derrubaram os índices de homicídio em Nova York. "O conceito de hot spot, locais de alta incidência de crime, foi o começo. Passamos a direcionar melhor os recursos e homens em lugares com mais ocorrências", explica o tenente-coronel Alfredo Deak Júnior, chefe do centro de processamento de dados da PM. "Demos outros passos. Hoje planejamos com informações que aparecem para toda a polícia em tempo real."

O tenente-coronel Pedro Borges de Oliveira Filho, chefe do Estado-Maior do Comando de Policiamento da Capital, afirma que a PM paulista diferencia-se das demais corporações brasileiras porque conseguiu levar a tecnologia e o uso inteligente das informações aos soldados e cabos. "Nos outros locais, a informação se restringe mais à área de inteligência", diz.

Quando chega para trabalhar, o sargento Ricardo Maranhão, responsável por um comando de patrulha na zona sul de São Paulo, recebe um cartão de patrulhamento que define a rota e os pontos por onde ele vai passar durante o dia. O roteiro é estabelecido conforme os índices criminais mais recentes na região.

Na mesma área, o sargento Eduardo Barbosa Nascimento, que comanda uma viatura da Força Tática, voltada para o combate a crimes violentos, explica que a figura romântica do policial de rua valente e com tirocínio, espécie de sexto sentido que leva os experientes a suspeitarem das pessoas certas, perdeu espaço. "Hoje essa experiência não é fundamental porque a tecnologia nos dá acesso ao conhecimento que os policiais acumulam nas ruas desde muito tempo. É um "neotirocínio"."

Para reconhecer suspeitos, mais importante, segundo ele, são as cerca de 500 mil fotos de suspeitos identificados conforme bairro de atuação e especialidade no crime. "Isso permite trabalhar com mais segurança, já que começamos todo dia a trabalhar sabendo, na medida do possível, o que vamos fazer."

Padronização. Outra medida importante para definir as ações das tropas paulistas são os chamados procedimentos operacionais padrão, regras para mais de 50 tipos de ações - como abordagens de rua, perseguição policial etc. Essas normas são colocadas no papel para orientar os policiais. O capitão Robson Cabanas Duque explica que as regras são refeitas e reescritas com o passar do tempo. Na semana passada, em uma ocorrência numa doceria, um dos suspeitos fugiu e outro foi baleado. "Detectamos o problema: a porta da doceria não poderia ter sido aberta e a viatura deveria ter ficado na frente, para mostrar força." O aprendizado foi registrado e servirá a outro policiais.

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