Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Em SP, filas já são evento cultural

Concorrência por atrações faz com que paulistanos incorporem a esperacomo parte do passeio; também vale a pena para postar foto na internet

Mônica Reolom, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h03

Embora fosse o meio da tarde de uma sexta-feira fria e nublada, Alexandra Sene, química de 41 anos, e o filho Mateus, de 10, já estavam há duas horas e meia em pé na calçada, esperando para ingressar no Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. "Viemos de Cotia", disse ela, ansiosa para finalmente entrar na mostra Obsessão Infinita (conhecida por exibir milhares de bolinhas), da artista Yayoi Kusama. "Só peguei uma fila parecida com essa quando Ayrton Senna morreu", lembrou Mara Marques, dentista de 42 anos que também estava com o filho, de 10.

Alexandra, Mara e as duas crianças, no entanto, já haviam feito amizade na fila e comprado pipoca e refrigerante das barraquinhas ao redor. Além disso, viraram atração: quem passava de carro ou a pé tirava foto da aglomeração que virava o quarteirão. A nutricionista Thaís Furlani, de 24 anos, brincava: "Vim para tirar foto e postar no Instagram".

Na Barra Funda, o casal Bruno Novaes, de 24 anos, e Aline Alves, de 26, atribuía às redes sociais um dos motivos por estarem há mais de 40 minutos na fila da exposição da dupla osgemeos, na Galeria Fortes Villaça. "Os amigos postam e estimulam que a gente venha. Nós também pretendemos tirar foto lá dentro", disse ele.

O sucesso de alguns eventos em São Paulo exalta a relação de amor e ódio do paulistano com filas. O apresentador do programa Cake Boss, Buddy Valastro, deu uma palestra gratuita no Shopping Eldorado, no domingo passado, que chegou a causar 7 km de congestionamento na Marginal do Pinheiros. A mostra do Castelo Rá-Tim-Bum, no Museu da Imagem e do Som (MIS), abriu no dia 16 e já teve de ampliar o horário. Com limite de 180 pessoas por hora, o MIS tem bloqueado a entrada de visitantes na fila por volta das 13 horas.

Anteontem, Adriana Rodrigues, autônoma de 37 anos, e Simone Gabriel, dona de casa de 48, ambas de Vargem Grande Paulista, estavam inconsoláveis com os filhos. Perderam a chance de comprar ingresso. "É muito decepcionante. A gente criou expectativa nos amigos e familiares e não teremos o que contar", reclamou Adriana.

Cultural. O psicólogo e professor da Universidade Mackenzie Aurélio Melo defende que a fila já se tornou parte da cultura paulistana. "Nos condicionamos a ficar e a frequentar filas. Veja o comportamento no trânsito. As pessoas em São Paulo buzinam bem menos do que em outras capitais do Brasil. A gente já está incorporando isso como uma cultura", explica.

Diretor do MIS, André Sturm, é o responsável pelas três exposições do museu que registraram recorde de público: de Stanley Kubrick, de David Bowie e a do Castelo Rá-Tim-Bum. Ele diz que a fila simboliza o bom momento cultural na cidade. "São Paulo nem sempre esteve na rota (de eventos)."

Para ele, a fila representa a melhor estratégia de organizar o público: "Ainda é o único sistema democrático de acesso a um local disputado". Embora esperasse um público significativo, Sturm se surpreendeu com a demanda. "Quando a gente estava preparando a do Kubrick, achávamos que só os cinéfilos viriam. Mas as pessoas vinham porque ouviam que a exposição era legal e viam a fila. A fila tem esse efeito no paulistano. Quando vê uma, ele entra, por via das dúvidas", brincou. Melo diz o mesmo, em outras palavras: "A fila ajuda a glamourizar o espetáculo".

O diretor do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Marcos Mantoan, destaca que a procura está relacionada à qualidade. "O que atrai público é a qualidade técnica, aliada, muitas vezes, à gratuidade. Estamos em um momento especial de boas exposições e cada uma que faz sucesso atrai para outras."

Já Melo credita o sucesso a outros fatores. "Na sociedade do espetáculo, eu vou a uma exposição para postar nas redes, para construir uma imagem de mim. Uma mostra faz mais sucesso do que outra porque está envolvida com mais glamour, maior possibilidade de proporcionar uma imagem melhor."

Sturm rebate: "Pode ser que ela tire a foto, poste na internet e nunca mais volte. Mas com certeza uma parte dessas pessoas se encanta e vira público do museu, o que eu acho sempre válido".

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