ALEX SILVA/ESTADAO
‘Tinha plano de comprar carro, mas o custo de manutenção é absurdo. É mais conveniente andar de táxi, Uber ou metrô”, diz Elaine de Lima  ALEX SILVA/ESTADAO

Em São Paulo, quatro em cada dez apartamentos novos não têm garagem

Das 37,1 mil unidades lançadas em 2018 na capital, 15,1 mil eram sem vaga, aponta Sindicato da Habitação do Estado (Secovi-SP); imóveis do tipo são mais comuns no centro, onde há mais oferta de transporte público e demanda por moradias menores

Júlia Marques e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 03h00

Supervisora de atendimento em um hospital, Elaine de Lima, de 36 anos, vai morar mais perto do trabalho. Ela não tem carro – nem pretende mais ter. No ano passado comprou um apartamento pequeno, sem vaga de garagem, no Cambuci, região central da cidade. Pesou na escolha a chance de usar transporte público ou um aplicativo para ir ao serviço, na zona sul, sem ficar presa no trânsito.

“Tinha plano de comprar carro, mas o custo de manutenção é absurdo e o trânsito está complexo. É mais conveniente andar de táxi, Uber ou metrô. Coloquei na ponta do lápis e não compensa.” No lugar das vagas de garagem, o prédio de Elaine colocou um bicicletário. As áreas arborizadas no condomínio, a piscina e academia encheram os olhos de Elaine. “Era meu sonho de consumo”, afirma ela, que também pensa em aprender a andar de bicicleta para aproveitar a ciclovia que passa por ali. 

Cinco anos após a aprovação do Plano Diretor de São Paulo, lei que orienta o desenvolvimento da cidade, o número de apartamentos sem vaga de garagem, como o de Elaine, aumentou. Só em 2018, quatro em cada dez unidades lançadas na capital não tinham estacionamento, tendência que acompanha novas formas de ocupar a cidade e se deslocar. 

Dados do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) indicam que, das 37,1 mil unidades lançadas no ano passado, 15,1 mil eram sem vaga de garagem (40,9%). Em números absolutos, a maioria se concentra nas zonas leste e sul, mas é no centro, onde a oferta de serviços e transporte público é maior, que as unidades sem vaga superam lançamentos para quem tem veículos. Só até março foram inaugurados 844 apartamentos sem estacionamento. 

Para especialistas, os lançamentos acompanham tanto a exigência da nova lei quanto mudanças no perfil do paulistano, menos conectado com os carros. Também atendem à necessidade de baratear os empreendimentos, enquadrando-os em regras de financiamento do programa Minha Casa Minha Vida, para caber no bolso do comprador, em meio à crise. 

O Plano Diretor estabeleceu que prédios no entorno de corredores de ônibus e estações de metrô tenham, no máximo, uma vaga de garagem por apartamento – é preciso que a construtora pague valor extra à Prefeitura caso queira mais espaço para veículos. Antes, uma vaga era o mínimo exigido. As diretrizes do plano foram detalhadas pela Lei de Zoneamento, de 2016. O objetivo é justamente desestimular o uso de carros em áreas adensadas, onde há oferta de transporte público. 

Segmentados. O resultado das mudanças foi uma diversificação nos novos empreendimentos. “Tem prédios com apartamentos de duas vagas e estúdios sem vagas”, exemplifica Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP. Em média, os apartamentos sem vagas lançados no ano passado tinham 36 m² – bem menores do que a média com vaga, de 68 m².

“É um movimento natural quando a cidade fica muito adensada. Em Nova York, as pessoas não têm carro privado e a nova geração tem a mentalidade de que o carro é quase um prejuízo”, afirma Deborah Seabra, economista do Grupo ZAP, portal de imóveis. 

Para Valter Caldana, professor de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, a lei sobre uso do solo em São Paulo “escutou” uma demanda. “Havia um segmento muito grande desejoso de morar em zonas centrais, pagando mais barato. E esse segmento dispensa o automóvel.” 

Os jovens são a cara desse movimento, diz Caldana, mas não são os únicos entusiastas. Mudanças nos padrões de família (que estão cada vez menores) e de consumo (de mais experiências e menos volume) ajudam a explicar a onda. O compartilhamento de serviços também impulsiona a escolha pelos novos apartamentos. “É para preferencialmente andar a pé, de patinete ou bicicleta. É um novo perfil de pessoas que preferem morar em lugar menor, mas próximo do trabalho, escola, lazer e áreas de consumo.”

No lugar de carros, bikes e patinetes

No lugar da garagem, empréstimo de bicicletas e patinetes. Novos empreendimentos sem estacionamento apostam na diversidade de meios de locomoção para atrair moradores. “Nossa tese é de que a pessoa pode usar outros modais ou transporte público. Cada vez menos pessoas querem pagar pelas vagas”, diz Alexandre Frankel, CEO da Vitacon. No ano passado, a construtora lançou um empreendimento na região da Avenida Paulista sem vagas, mas com patinetes para compartilhar.

Aposta parecida foi a da MAC Construtora e Incorporadora, com dois novos empreendimentos sem vagas - um na Liberdade, na região central, e outro em Moema, na zona sul. Nesses, foram instalados bicicletários com bikes à disposição dos condôminos - os moradores é que regulam o uso dos equipamentos, explica Ricardo Pajero, gerente comercial da MAC. 

Outra tendência é trazer o trabalho para dentro do condomínio. “Os prédios vão começar a receber um ou dois andares de coworking. Essa mudança vai começar a aparecer em breve”, afirma Antonio Claudio Fonseca, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie.

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Análise: Imóvel sem vaga de garagem deixou de ser um ‘mico’ do mercado

O Plano Diretor foi uma das peças nessa virada, diz urbanista. Nos próximos anos, cenário deve se aprofundar, acrescenta

Renato Cymbalista*, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 03h00

Nos últimos anos, foi finalmente desmontado o mito de que em São Paulo não é possível mexer com os automóveis. Medidas como faixas de ônibus, ciclofaixas e ciclovias e a abertura de ruas aos pedestres foram implementadas sem compensações para os motoristas. 

O Plano Diretor foi uma das peças nessa virada. Por esse documento, o poder público deixou de lado a exigência absurda de um número mínimo de garagens, e passou a trabalhar com a ideia de limitar a quantidade delas em algumas situações. O modelo que o Plano Diretor tentou implementar é o de adensamento populacional nos locais com mais acesso ao transporte coletivo de massa, em empreendimentos com menos (ou nenhuma) garagem, favorecendo o uso de transporte coletivo. 

Essas medidas foram possíveis também por causa de movimentos mais amplos. Os aplicativos de táxi e Uber permitiram um acesso muito mais confortável ao transporte individual para aqueles que podem pagar. Muitas cidades do mundo vêm tomando de volta os espaços que os carros haviam roubado durante a segunda metade do século 20. Há uma tendência global de valorização de áreas mais centrais, com usos mistos que favorecem os deslocamentos a pé. 

A aplicação da lei seca tornou menos atraente a ideia de sair de carro para se divertir com os amigos. Equipamentos de controle como os radares fotográficos aumentaram os riscos de multas. A pontuação na carteira em caso de contravenção trouxe o fantasma da perda da autorização de dirigir. Atualmente o automóvel não é mais o símbolo de status e de independência que era até alguns anos atrás. 

Tudo isso foi mudando a posição do carro na sociedade, principalmente entre os jovens. Esses elementos trouxeram as condições para que a cidade mudasse a forma como trata as garagens nos edifícios. Um apartamento sem garagem já não é mais considerado um “mico” pelo mercado imobiliário. Nos próximos anos, isso deve se aprofundar: menos edifícios terão garagens. 

*É URBANISTA E PROFESSOR DA FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

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