Cesar Cuninghant/Estadão
Cesar Cuninghant/Estadão

Em São Paulo, livros ganham espaço até em parklets

Estantes se espalham por bares e restaurantes; ideia é que cliente leve obra para casa e deixe outra no lugar

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2015 | 07h01

Esqueça poeira, silêncio, organização exagerada, carteirinha de empréstimo. Nas pequenas bibliotecas que surgem em lanchonetes, restaurantes e até parklets de São Paulo, as palavras de ordem são outras: horizontalidade, coletivo, bookcrossing, autogestão. Com boas pitadas de marketing, é claro.

É o caso da Rock’nRoll Burger, lanchonete que existe desde fevereiro de 2012 no burburinho da Rua Augusta, região central de São Paulo. Há um ano, o local passou a integrar o projeto Esqueça o Livro, inaugurando ali uma estante para cerca de 100 exemplares. “A ideia é que as pessoas deixem livros diversos e levem para casa quais quiserem. Isso cria uma rotatividade, fazendo com que tenham a oportunidade de conhecer outros títulos e gêneros literários”, afirma o proprietário da casa, Gabriel Gaiarsa.

Espaço coletivo. Cinco meses atrás, quando resolveu que queria um parklet na frente do seu restaurante – o Maíz, em Pinheiros –, o chef colombiano Dagoberto Torres pensou em livros. “Porque além de um espaço, queria oferecer alguma atividade para as pessoas”, conta.

Saiu garimpando pelos sebos da região e comprou 25 títulos – todos de literatura hispano-americana, em destaque obras de seu conterrâneo Gabriel García Marquez (1927-2014). “Mas os próprios sebos acabaram gostando do projeto e doando mais de 50 obras. No dia seguinte, então, uma senhora parou o carro aqui na frente e acabou deixando outros 30 e tantos livros”, recorda-se.

Com a integração dos usuários, a temática hispano-americana se perdeu. "Outro dia, vi que tínhamos a coleção completa do Harry Potter, por exemplo", diz. Torres não vê nisso um problema. Pelo contrário. "É superlegal. A biblioteca ficou viva e natural."

No discurso da sorveteria Ben & Jerry’s, na Rua Oscar Freire, está a preocupação com o "prazer do consumidor". A biblioteca comunitária existe ali desde setembro do ano passado, quando a unidade foi inaugurada. “É um cantinho de prazer, inspiração e sabedoria. Ao entrar ali, esperamos que o nosso consumidor, não só se delicie com um sorvete cheio de pedaços e história, mas também pare para fazer algo que lhe dê prazer”, afirma a publicitária Renata McNair, porta-voz da Ben & Jerry’s no Brasil. "Como a sorveteria é frequentada por um público heterogêneo, usamos nosso espaço para oferecer leitura de qualidade ao paulistano."

Em maio, o acervo passou a ser melhor pinçado. Foi quando o estabelecimento firmou parceria com o jornalista Ricardo Lombardi, proprietário do sebo Desculpe a Poeira, em Pinheiros. Desde então, ele atua como curador da coleção, oferecendo cerca de 40 títulos por mês para repor os levados pelos frequentadores.

"Nessa tarefa, acho que o mais importante é escolher livros que não estão no radar da maioria das pessoas, pois é mais divertido esbarrar em títulos que você não conhecia", comenta Lombardi. "Conectar novos leitores com livros desconhecidos é o mais interessante desse tipo de trabalho."

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