Em Murici, 200 famílias dividem quatro galpões

Com um banheiro para todos, a maioria se banha em riacho barrento. Na cidade, moradores disputam entulho para reconstruir casas

Angela Lacerda / MURICI, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

A cerca que ladeia a BR-104 na entrada de Murici, na Zona da Mata de Alagoas, denuncia que a cidade, com 4,6 mil desabrigados pela enchente do Rio Mundaú, vive um momento inusitado. Ela serve de varal para parte das pessoas que perderam suas casas. Quatro galpões ao lado da rodoviária são divididos por 200 famílias.

"Até quando vou ficar aqui?", pergunta Patrícia Paula da Silva, de 40 anos, mãe solteira de quatro filhos. "Eu já vivia em estado de calamidade antes da cheia, mas tinha o meu canto."

Em Murici, seis pessoas morreram e 4.102 casas foram destruídas. No abrigo com só um banheiro, a maioria faz suas necessidades do lado de fora. O principal passatempo das crianças é ficar "na tocaia" das doações. Quem dá roupas as deixa na igreja. "Eles rasgariam tudo na disputa", diz Flávia da Silva, de 26 anos, que vende frutas no Ceasa de Maceió e levou o que os comerciantes juntaram.

Os abrigados tomam banho em um riacho barrento. O lixo se amontoa do lado de fora dos galpões.

Improviso. Na cidade, os 29 mil habitantes se viram como podem. Comerciantes reaproveitam o que restou nas suas lojas, gente que perdeu as casas vigia os imóveis para que ninguém retire entulho que possa ter uso.

Em uma carroça puxada por uma égua, Daniel José da Silva, de 25 anos, e José Ediel da Silva, de 17, faziam a décima viagem do dia. "Não estou roubando. Estou pegando o que está sem uso." Casado e com dois filhos, Silva também perdeu sua casa e pretende construir uma moradia fora da cidade.

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