Pablo Rey/AE
Pablo Rey/AE

Em meio a 2 enchentes, 1 ano vivendo em tenda

Em Palmares, os flagelados da chuva desta semana tentaram invadir as casas feitas para vítimas do ano passado, que vivem em cabanas rasgadas

Angela Lacerda, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2011 | 00h00

Um ano vivendo em uma tenda rasgada, em meio a duas enchentes. A água - ou melhor, a enchente - voltou ao Nordeste e para muitos tirou até a esperança. Entre terça-feira e quinta-feira, Palmares, a 125 quilômetros do Recife, na Zona da Mata Sul, ficou novamente com as ruas cheias de lama e lixo. Há 202 famílias desabrigadas - 88 desde o ano passado.

Anteontem, conforme o último balanço oficial, havia 51 municípios pernambucanos atingidos, 17 em emergência e 2 em calamidade pública - Barreiros e Água Preta. As famílias desabrigadas no Estado totalizavam 3.825 e as desalojadas, 8 mil. Duas pessoas morreram soterradas.

No cenário que lembra uma guerra, em tendas já desgastadas e com buracos, sob um calor infernal, as famílias desabrigadas pelas águas de junho do ano passado suportam todas as dificuldades com um só pensamento: cadastradas para receberem uma casa do Programa Minha Casa, Minha Vida, temem deixar o local e perderem a prioridade. "A vida não está boa debaixo dessas cabanas com a lona rasgando e cheias de goteiras", admite Cícera Maria da Silva, de 43 anos, que ocupa a tenda de número 31, com o marido e quatro filhos. Ela morava no bairro São Sebastião, tomado pelas águas, e se sustenta com o alento de sair dali para uma casa própria. "Vai ser como sair do inferno para o céu."

O desconforto nas tendas já promoveu a separação de um casal. Josué Miguel da Silva, de 35 anos, só salvou os documentos na cheia de junho e foi com a mulher e três filhos para uma das tendas. "Não aguentei." A mulher, Vera Lúcia, o dispensou e ficou com os filhos, disposta a conseguir uma moradia de alvenaria, com banheiro interno.

Já Maria de Jesus Conceição, de 67 anos, pegou doença no chão insalubre e tem dificuldade de andar. Continua na tenda, como se estivesse em uma prisão, ao lado do marido e dos quatro netos que cria. "Se Deus quiser, é daqui para uma casa no alto, sem cheia."

Das 2.120 casas previstas para Palmares, 120 deverão ser entregues em um prazo previsto de 30 a 60 dias. O alvoroço e a ansiedade são grandes. As casas que estão quase prontas até foram alvo de tentativa de invasão por um grupo de 30 desabrigados afetados pelas chuvas da terça-feira. O prefeito José Bartolomeu (PDT) soube do plano a tempo e a Polícia Militar impediu.

Sina. Mas nem todos os desabrigados das recentes chuvas têm esperança. "Minha sina vai ser morar na beira do rio", lamenta Jeane Cristina Araújo da Silva, de 27 anos, dois filhos. "Na cheia do ano passado, perdi tudo e não me cadastrei."

Com todos os transtornos, os atingidos garantem que a dimensão da enchente de semana passada não se compara à de 2010, embora o sofrimento seja grande. "Parecia que o mundo ia se acabar", conta Davi Soares da Silva, ajudante de pedreiro. "A gente ainda tentou tirar os móveis de dentro de casa, mas a água chegou primeiro."

O anúncio da construção de cinco barragens no Rio Una pela presidente Dilma Rousseff (PT) deu novo ânimo ao prefeito. "Palmares vai dormir feliz", acredita. Até a concretização da promessa, porém, ainda restam, segundo ele, "muito prejuízo e aperreio". Das 37 pontes parcialmente destruídas em junho, 32 estavam funcionando. "Só que foram atingidas de novo." Nas ruas, sob o sol, moradores tentam driblar a falta de água enchendo baldes e bacias no poço de casas particulares. A promessa da prefeitura era regularizar o abastecimento ontem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.