Em Mauá, uma área de risco bem conhecida por todos

Cidade já contabiliza 5 mortos e 12 feridos por causa das chuvas neste ano, todos vítimas de[br]soterramento

Diego Zanchetta, Marcela Spinosa e Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2011 | 00h00

Vizinha da Serra do Mar e com centenas de barracos construídos em topos de morros, Mauá, na Grande São Paulo, já contabiliza cinco mortos e 12 feridos em 2011 por causa das chuvas - três somente na madrugada de ontem. Todos foram vítima de deslizamentos de terra.

Só no Morro do Macuco, uma área de preservação loteada nos anos 1980, o Corpo de Bombeiros retirou os corpos de quatro moradores soterrados, nos últimos seis dias. Assustadas e sem ter para onde ir, centenas de famílias moradoras de encostas prestes a ceder na ocupação, localizada no Jardim Zaíra, acompanharam mais dois resgates no final da manhã de ontem.

Os corpos do estudante Paulo dos Santos, de 16 anos, e de seu vizinho, o aposentado Marcos Marosticon, de 58, estavam cobertos com mais de três metros de terra desde a 1h15. Perto do Morro do Macuco, na ocupação vizinha chamada Jardim Rosina, a Defesa Civil já havia localizado, durante a madrugada, o corpo de Jairo Garcia, de 42 anos.

O pai do adolescente que morreu, o eletricista Juraci Vieira dos Santos, de 51 anos, já havia perdido a casa em um deslizamento, em 7 de dezembro de 2009. Mas ele resolveu construir um novo sobrado do outro lado do morro, em uma parte mais baixa. Na semana passada, após as duas mortes na sua rua, Santos contou ter pensado em deixar o bairro após 28 anos.

"Mas não tinha para onde ir, achei até que na nossa parte a terra estava mais firme. Consegui salvar quatro dos meninos, mas não cheguei no Paulinho, ele já estava no fundo da terra", contou o pai.

A família do aposentado, que também morreu soterrado, deixou o bairro e foi para a casa de parentes. O corpo foi localizado às 11h40. Às 18h de ontem, bombeiros e integrantes da Defesa Civil ainda tentavam convencer famílias a deixar suas casas no topo do Macuco.

Vontade de sair. Para quem observa os sobrados de cinco andares encravados no alto do Morro do Macuco, a mais de 40 metros de altura e cercados por córregos à beira de transbordar, a tragédia parece iminente mesmo sem chuva. Era o que a dona de casa Irene de Souza, de 48 anos, tentava dizer ao marido, o vigia Geraldo Silva, de 55. As duas casas engolidas pelo deslizamento ocorrido na madrugada de ontem ficavam logo abaixo do sobrado onde mora o casal.

Apesar de a Defesa Civil ter orientado o vigia a sair imediatamente, ele diz que vai ficar. "Aqui eu estou em uma rocha, é firme. Embaixo desabou porque é terra frouxa", argumentou. "Eu fico monitorando as trincas. Se aumentar, eu saio."

Entre outros vizinhos, a situação era a mesma: mulheres com filhos pequenos querendo ir embora e os maridos insistindo em ficar. "Vou reforçar as paredes com mais cimento e colocar pedras para segurar o barranco de cima", disse o pedreiro Genésio Gonçalves, de 35 anos, sob os olhares de reprovação da mulher, a dona de casa Luceia da Silva, de 32. "Quando chove eu saio para a rua e fico debaixo d"água mesmo. Mas não vou embora sozinha, tenho dó de deixar ele aqui", admitiu ela.

A Defesa Civil colocou lonas pretas nos barrancos com risco de deslizamento. Mesmo nessas áreas, famílias relutavam em ir embora. "Vou pra onde? Não tenho dinheiro para aluguel e não vou para abrigo", justificou Carolina Ribeiro da Cruz, de 55 anos, que teve metade do sobrado engolido por um barranco.

A prefeitura de Mauá informou que todos os moradores de áreas de risco vão receber auxílio-aluguel de até R$ 300 mensais se quiserem deixar suas casas. Segundo o governo, o Morro do Macuco é uma área particular que pertence à família Sadek e foi loteado a partir de 1981. O terreno teve declives e topos de morros loteados irregularmente, pois se trata de uma área de preservação permanente, informou o Ministério Público Estadual.

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