Humberto Silva
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Em GO, Doria defende 'farinata' e diz que é preciso tirar ideologia

Ao lado do governador Marconi Perillo, prefeito criticou Fome Zero; em SP, mães fazem protesto contra a adoção do produto

Juliana Diógenes e Renan Truffi, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2017 | 18h35

GOIÂNIA E SÃO PAULO - O prefeito de São Paulo, João Doria, criticou nesta quinta-feira, 19, os partidos de oposição que têm se manifestado contrariamente ao Programa de Alimentação Solidária, lançado pela Prefeitura. A ação prevê a distribuição de um composto, chamado "farinata", feito com base em alimentos que não seriam comercializados, para a população carente da capital paulista.

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"Vamos tirar um pouco desse aspecto ideológico que este tema acabou tendo na cidade de São Paulo, com manifestações do PSOL, do PT, dos partidos de esquerda", afirmou o prefeito, após reunião com o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), em visita à capital goiana.

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Doria aproveitou para criticar o governo do petista Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo ele, desejou fazer o Fome Zero durante dois anos e "nada fez". "Consumiu milhões de reais e não implantou o Fome Zero. Nós estamos criando um programa, na verdade, adotando um programa, eu repito, que é bom, que é positivo e vamos fazê-lo gradualmente, sem pressa, sem afobação, e principalmente sem viés ideológico", afirmou o prefeito.

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O prefeito de São Paulo enfatizou não ter pressa na implantação do programa. "Não temos que ter pressa, temos que ter eficiência. E volto a dizer as palavras do cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer: 'Fome não tem partido, fome não pode ser tratada com questões ideológicas e partidárias'."

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Doria explicou que o programa de alimentação solidária foi desenvolvido por uma organização não governamental e apresentado à Cúria Metropolitana de São Paulo, que ofereceu à Prefeitura essa alternativa.

"A prioridade em São Paulo é a população desfavorecida, as populações em situação de rua e aqueles que precisam de alimentação adequada. E, onde puder haver alguma complementação, isso será feito", disse o prefeito.

 

Protesto de mães

Um dia após Doria anunciar a adoção da "farinata" na merenda escolar da rede municipal, um grupo de mães de alunos se mobilizou e realiza um protesto na Avenida Paulista, na região central da capital. Com o tema "Nossos filhos não são lixo" e a presença de crianças, o ato no Museu de Arte de São Paulo (Masp) espera reunir cerca de 500 pessoas. 

Produzido a partir de alimentos próximos à data de vencimento, o composto será incluído na merenda de parte das escolas municipais da cidade ainda neste mês. Segundo a Prefeitura, está "em estudo" como será feita distribuição e quais instituições serão inicialmente contempladas. Está definido, porém, que não haverá custo aos cofres públicos.

A mobilização das mães teve início nas redes sociais na tarde dessa quarta-feira, 18, após o anúncio. Mãe de dois filhos matriculados na rede municipal de ensino, a empresária Vivian Regina Marques, de 38 anos, disse que se sentiu "desolada" ao receber a notícia sobre a inclusão do composto alimentar na merenda. 

"Meus filhos não são lixo. Eles não vão comer esta ração. Este senhor não vai fazer isso. É muito sério", afirmou Vivian. "Um produto ultraprocessado eu nem gostaria de servir aos meus filhos. Agora, a Prefeitura quer fazer o reprocessamento de um alimento já ultraprocessado. É surreal de imaginar. Não dá para aceitar."

Segundo a empresária, que vai participar do ato nesta quinta-feira, a motivação do protesto não é política, nem partidária. 

Vivian disse que, na semana passada, um grupo de mães entregou ao secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, um documento solicitando a inclusão de produtos orgânicos à merenda escolar.

"Pedimos alimentação saudável, praticas sustentáveis, falamos de hortas. Tudo para melhorar a alimentação. Na semana seguinte, a Prefeitura anuncia ração. Primeiro, você se sente desolada. Ou você se sente incapacitada, baixa a cabeça e espera. Ou você vai para a luta", afirmou a empresária. "Se não tem uniforme, damos um jeito. Mas, neste caso, decidimos que não dava pra baixar a cabeça."

As mães fizeram denúncias ao Grupo de Atuação Especial da Educação (Geduc), do Ministério Público Estadual de São Paulo (MPE-SP), com relação ao uso do composto na merenda escolar. Elas também enviaram e-mails de protesto à Secretaria Municipal da Educação e à Coordenadoria de Segurança Alimentar e Nutricional (Cosan).

"Queremos que nossos filhos comam comida de verdade. Queremos merenda saudável e não restos de comidas que estão para vencer", pede o grupo de mães que se mobilizam para o ato. 

Questionada sobre as críticas ao produto, a Prefeitura não respondeu até a publicação desta reportagem. 

'Farinata'

Disponível em versões em pó, granulada ou processada na forma de macarrão e biscoito, o composto será utilizado como complemento e substituto de parte da merenda escolar. A secretária municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Eloísa Arruda, disse que será estudada, por exemplo, a substituição do macarrão comprado para as escolas pela versão doada pela Sinergia, organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) que detém a patente do produto.

Na coletiva desta quarta, o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, reafirmou apoiar o projeto da Sinergia há pelo menos quatro anos e disse que o composto alimentar já está sendo adotado nos sítios da Missão Belém, que acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade social.

"Eu fico ofendido quando dizem que é ração. Desrespeitar o pobre é lhe negar o alimento, é a fome", declarou.

No mesmo evento, Doria e o cardeal provaram uma torrada feito com o composto, que também foi distribuída a jornalistas antes da coletiva, sem a informação de que era produzida com a "farinata". Sem antecipar prazos, o prefeito ressaltou que o produto também deve ser distribuído em outros aparelhos sociais.

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