Em fúria, secretário busca empresário Oscar Maroni na sede do Ministério Público

Maroni prestou boletim de ocorrência contra Almeida, que o havia ameaçado de agressão um dia antes

Diego Zanchetta,

01 de junho de 2012 | 14h33

Orlando Almeida, secretário de Controle Urbano, 64 anos, chegou ontem à sede do Ministério Público Estadual da Rua Riachuelo, no centro de São Paulo, cinco minutos após a abertura ao público, por volta das 11 horas. Com uma pasta preta lotada de documentos embaixo do braço, o enfurecido secretário, sozinho, indagava funcionários e PMs com quem esbarrava pela frente. "Cadê o Maroni, aquele dono do Bahamas, vocês viram ele por aqui?", perguntava. De escada, subiu até o sétimo andar, na Promotoria de Patrimônio Público. Seria ali que o empresário Oscar Maroni, de 61 anos, deixaria documentos que incriminam Almeida, um dos responsáveis pelo fechamento em 2007 de sua Boate Bahamas.

Espantados com a fúria do senhor de cabelos grisalhos e bochechas rosadas, os PMs da portaria do MP começaram a segui-lo até o sétimo andar. Um dos soldados questionou se ele havia marcado horário para alguma audiência. O trio de policiais só ficou mais tranquilo após Almeida, homem de confiança do prefeito Gilberto Kassab (PSD), apresentar seu crachá de secretário municipal. Almeida permaneceu na antesala na Promotoria até as 13 horas, sem ir ao banheiro. Por volta das 13h20, ligou à reportagem do Estado. "Estou aqui esperando o Maroni, ele não falou que luta boxe? Não dá para avisar ele que estou aqui esperando ele?", pediu o secretário.

Naquela altura, Maroni estava em uma delegacia, também da região central, para prestar boletim de ocorrência contra o secretário, que o havia ameaçado de agressão um dia antes. "Sou um contribuinte, um secretário não pode dizer que vai agredir um pagador de impostos", argumentou, ao lado do advogado Leonardo Pantaleão. "Não vou ao MP hoje, vou amanhã ou segunda-feira. Não gosto de briga de rua, sou um cara técnico. Quero lutar boxe com ele em um ringue inflável que vou montar no dia da Virada Esportiva, em frente ao Viaduto do Chá. Vou estar com uma camisa com a frase 'contribuinte', aí quero ver a valentia dele", acrescentou.

Tensão. Como Maroni não aparecia na sede do MP, Almeida decidiu descer o Viaduto Maria Paula, a pé, até o prédio da Procuradoria-Geral do Município. Ele queria encontrar o parecer jurídico que Maroni acusa o secretário de ter descumprido em 2006. Duas horas depois, com todo o processo de 106 páginas da liberação do Bahamas em mãos, Almeida chamou seu carro oficial e retornou ao Ministério Público. Descontrolado e nervoso, o secretário derrubou um motoboy ao abrir a porta de seu carro para descer na calçada em frente ao MP, por volta das 15h30.

"Olha só, por causa de um cafetão sem família, imoral, acabei machucando uma pessoa inocente, um trabalhador", argumentou o secretário. "Eu não admito que esse senhor nunca mais pronuncie meu nome. Nem se for para elogiar. Tenho família, hombridade, caráter. Esse é o meu patrimônio, muito mais importante que todos os meus bens. Não posso deixar ninguém ficar me denegrindo dessa maneira", argumentava o secretário. Com o processo do Bahamas em mãos, mostrou que o parecer determinando uma nova avaliação para a concessão de licença à boate, feito pelo então secretário de Negócios Jurídicos Luiz Antonio Guimarães Marrey, foi feito pela sua pasta à época, a Secretaria de Habitação.

"Mandei um novo perito lá e não houve a possibilidade de liberar a licença", disse o secretário. Em seguida à avaliação feita pela pasta de Almeida, que apontou ser impossível conceder licença à boate, o ex-diretor do Departamento de Aprovações, Hussain Aref Saab, mandou indeferir o pedido de Maroni. O empresário acusa Saab de ter pedido R$ 170 mil de propina para liberar seu empreendimento - o ex-diretor é investigado por enriquecimento ilícito e foi demitido no final de abril por Kassab.

"A boate só não foi liberado porque não paguei o que ele pediu. E o Orlando, que era chefe dele, não sabia de nada que o Aref fazia?", disparou ontem Maroni, que promete ir hoje ao MP levar "três documentos que incriminam o Orlando". O secretário permaneceu no MP até as 18 horas, à espera do empresário. "Se ele falou que vai vir amanhã (hoje), não tem problema. Posso voltar aqui", completou o secretário.

Polêmica se deu após TJ liberar Habite-se para boate. A troca de farpas entre o secretário municipal Orlando Almeida (Controle Urbano) e o empresário Oscar Maroni ocorreu após o Tribunal de Justiça de São Paulo determinar ontem que a Prefeitura conceda o Habite-se (certificado de conclusão de obra) à Boate Bahamas. Ao sair do Palácio da Justiça, Maroni disse que no dia seguinte levaria provas de corrupção contra Almeida e contra o ex-diretor do Departamento de Aprovações, Hussain Aref Saab.

Almeida viu as declarações de Maroni na Internet e ligou para a reportagem do Estado. "Olha, eu quero ver se ele vai mesmo na Promotoria. Se eu encontrar esse sujeito, vou quebrar a cara dele", disse o secretário do Estado. Em seguida, questionado sobre as declarações do secretário, o dono do Bahamas afirmou que "fez 10 anos de boxe" e estava tranquilo.

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