Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Em estado de calamidade, Osasco leva famílias de áreas de risco para abrigos

Cidade foi uma das mais afetadas pela forte chuva que atingiu a Grande São Paulo nesta segunda-feira, 10; famílias tiveram que deixar as casas e perderam praticamente tudo

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 21h25

OSASCO - Desde que a forte chuva que atingiu a Grande São Paulo provocou uma série de deslizamentos e fez Osasco decretar "estado de calamidade", a catadora de material reciclável Bruna Ribeiro, de 23 anos, divide um colchão com o filho Carlos Eduardo, de 4, no piso de um abrigo improvisado na cidade. "Não é igual a ficar em casa, mas pelo menos aqui a gente está seguro", afirma. Moradores do Morro do Socó, área considerada de risco, Bruna, o filho e o marido Antônio Carlos Alves, de 26 anos, fazem parte das 53 famílias que, até a tarde desta terça-feira, 11, tiveram de deixar suas casas e tudo que havia nelas - móveis, roupas, alimentos - para trás.

Desalojada, a família foi recolhida ao CEU Bonança, onde o teatro virou dormitório para mulheres e crianças. Os homens ficam em outra sala do espaço. Lá e no Centro Cultural e Esportivo do Portal D’Oeste, onde a prefeitura montou uma espécie de quartel-general para atender as vítimas, carros estacionam de instante em instante, deixando doações de água, roupas, comidas e brinquedos.

Por causa das chuvas, a energia no CEU Bonança está instável, segundo relatam os abrigados. Nesta tarde,  estava sem luz. "A situação não está nada bem... Está muito precário. Fico pensando na casa abandonada e nas outras famílias", diz Alves, que dividia o dormitório com mais cinco rapazes. Já na ala feminina, havia duas gestantes e recém-nascidos.

A família relata que o barraco havia sido reconstruído na semana passada - recentemente, uma chuva forte derrubara uma árvore sobre a casa. "Só escutei o estalo e saí correndo. Aí vi a casa no chão e fiquei desesperada: comecei a chorar", diz Bruna. "Quando chove, não consigo dormir, com medo."

Fora de casa, o filho Carlos Eduardo já começa a estranhar a rotina, segundo os pais. "Hoje ele perguntou: 'Mamãe, vou poder ir para a escolinha?", conta Bruna. Além dos pertences, a família precisou se separar dos dois gatinhos - Limpão e Limpinho. "São os xodós do meu filho. Ele sente falta demais."

Isolados 

No Portal D’Oeste, o temporal saiu arrancando árvores do chão e varrendo barracos da vizinhança. Um desmoronamento provocou, ainda, o soterramento de uma criança, que foi resgatada com vida.

Moradora da região há 20 anos, a ambulante Izilda Salgado, de 65 anos, se vê desabrigada pela primeira vez. "Nunca passou pela minha cabeça estar em uma situação dessa", diz. Por causa do risco de desabamento, abandonou geladeira, armário, fogão. "Fui para a casa do meu filho em Itapevi, mas não é o ideal. Gosto do meu cantinho", diz a idosa que, por causa das varizes, tem problema de locomoção. Vizinho, o outro filho Alexandre Salgado, de 43 anos, também está proibido de retornar para casa por conta do risco de deslizamento. "Ontem (segunda-feira), dormi dentro do carro. As casas estão todas penduradas", afirma.

Nesta terça, Salgado decidiu fazer cadastro na prefeitura para receber assistência, mas ficou desanimado com a perspectiva do benefício e diz que vai continuar na área de risco até haver solução definitiva. "Onde vou encontrar um lugar com R$ 300 do auxílio-aluguel? Eu paguei R$ 25 mil para construir minha casa."

O jovem Lucas Santana, de 23 anos, também estava a procura de abrigo. Embora tenha sido retirado de casa, ele relata ter ignorado o isolamento da Defesa Civil e voltado para o local de risco à noite. "Dormi com medo de tudo cair na minha cabeça", diz.

A área da frente do barraco desmoronou durante o temporal. Já uma parede de trás sofreu danos após algumas bananeiras, plantadas no morro, caírem. "Saiu tudo desbarrancando", relata Santana. "Eu olhava de um lado para o outro, sentia aquela coisa ruim na cabeça, mas não tinha outro lugar para ir."

O auxiliar de pedreiro Esdras Amaro, de 22 anos, vive com a mulher de 15 anos e um filho de um ano e três meses, em um barraco erguido sobre o córrego.  "Fica por cima de um esgoto. Depois da chuva, a casa deu uma baixada de uns três centímetros", conta. "Tinha muita lama. Entrou água na cozinha, no banheiro..."

A família foi buscar ajuda nesta manhã e aguardava vistoria da Defesa Civil do município. "A gente tem medo de não ter onde ficar", diz Amaro. "A qualquer momento a estrutura pode descer e, aí, vai todo mundo para o breu."

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