Em depoimento, casal Nardoni não explica vômito e sangue

Alexandre e Anna Carolina Jatobá disseram desconhecer manchas na camiseta dele e no sapato dela

25 de abril de 2008 | 23h51

Em seu segundo depoimento no 9º DP (Carandiru), Alexandre Nardoni, de 29 anos, não conseguiu explicar como o vômito de sua filha Isabella, de 5 anos, foi parar na camiseta que usava no dia em que a menina foi jogada do 6º andar do Edifício London, na Vila Isolina Mazzei, zona norte de São Paulo. Da mesma forma, a madrasta, Ana Carolina Jatobá, de 24 anos, não tinha uma explicação para o sangue de Isabella encontrado em seu sapato.   Veja também: Casal não irá à reconstituição do crime Só casal é convocado para reconstituição 'Há mais que indícios' contra o casal, diz promotor Fotos do apartamento onde ocorreu o crime  Cronologia e perguntas sem resposta do caso   Tudo o que foi publicado sobre o caso Isabella     Os depoimentos do casal, no dia 18, foram divulgados pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, nesta sexta-feira, 25. Segundo a reportagem, o interrogatório de Alexandre, que demorou 8h39, começou num tom leve, em que ele fala sobre o comportamento de Isabella e do bom relacionamento entre eles e com Anna Carolina, sem brigas ou ciúmes. Depois, repetiu sua versão sobre o crime.   Foi quando o interrogatório tomou outro rumo. Os delegados Calixto Calil Filho e Renata da Silva Pontes apresentaram provas técnicas que indicam o envolvimento do casal no assassinato da garota. Questionado se sua camiseta se encontrava suja no dia do crime, o pai afirmou que não. Foi quando surgiu a informação sobre o vômito encontrado em sua camiseta.   No depoimento, ele diz que em momento nenhum viu sua filha vomitando, ainda em vida. Conforme o Estado apurou com os peritos, o vômito foi uma reação natural do organismo, após a garota ter sofrido o processo de asfixia, mediante esganadura.   Defesa e Acusação   Um dos advogados do casal, Rogério Neres de Souza, confirmou ao Estado nesta sexta que um dos laudos da perícia aponta vestígios de vômito de Isabella. "Realmente esse laudo diz que foram encontrados vestígios no DNA. Mas, considerando que ele (o pai) teve contato com a Isabella quando ela estava caída na grama do prédio, pode ser que tenha havido contato entre a camiseta dele e a boca da Isabella", argumentou.   O promotor Francisco Cembranelli disse ao Estado que ouviu da polícia a informação de que havia, sim, manchas amareladas, provavelmente de vômito, na roupa de Alexandre. "Mas não tenho o dado oficial, não li isso no papel. O laudo a esse respeito está sendo refeito porque houve um problema nos computadores do Instituto de Criminalística", disse.   Cembranelli afirmou também que, no segundo depoimento, o pai de Isabella declarou ter demorado 19 minutos fora da cena do crime, "tentando aumentar o tempo de ausência do apartamento - dele lá embaixo e da menina lá em cima - para dar mais tempo para um eventual terceiro fazer tudo". Questionado pela polícia, em seguida, como isso poderia ter acontecido se o GPS do carro dele indica um intervalo de 14 minutos entre o desligamento do carro e a ligação de um vizinho para o resgate, Alexandre voltou atrás e afirmou ser possível que tivesse demorado menos. No primeiro depoimento, ele declarou que teria ficado fora do apartamento por aproximadamente 9 minutos.   A defesa, por sua vez, pretende posteriormente usar em seu favor esse dado, conforme revelou Souza nesta sexta. "Agora temos as informações do rastreador do carro, que revela a chegada do casal na garagem às 23h36. Vamos conseguir desbancar quase a maioria das testemunhas que depuseram contra o casal. Muitos disseram ter ouvido brigas antes desse horário." O advogado ressaltou que a polícia deveria ter "lacrado o apartamento e o carro antes para evitar, agora, suspeitas desnecessárias".   Quanto aos comentários de Alexandre sobre a pegada no lençol, compatível com o chinelo que usava no dia do crime, o promotor disse que o mais importante é que nenhuma outra marca foi encontrada, sugerindo a presença de uma terceira pessoa. "No primeiro depoimento, Alexandre falou que fechou a janela (de onde Isabella foi atirada). No segundo, ele disse que a janela estava semi-aberta e fechou quando deixou a menina no quarto. Depois, quando voltou atrás, relatou que ela estava aberta."   "Já existem provas indicando a responsabilidade criminal", observou Cembranelli, dando a entender que o oferecimento da denúncia contra o casal é fato certo. Indagado se já sabe a motivação do crime, ele respondeu que "o motivo não tem tanta importância". "O importante é o fato. Há milhares de crimes que você não consegue apurar o motivo, mas nem por isso deixa de processar. Já denunciei milhares de pessoas descrevendo o crime em si sem falar de motivo porque não tinha explicação ou não tinha certeza. Não vou inventar um motivo. Se eu não tiver elementos precisos, não vou inserir na denúncia."   A madrasta   O depoimento de Anna Jatobá durou 5 horas e 20 minutos e tem 13 páginas, conforme o Jornal Nacional. No interrogatório, ela se definiu como uma mulher que tem ciúmes, briga e fala palavrões, embora garanta que tenha ficado mais madura depois do nascimento dos dois filhos.   Informada sobre a constatação de sangue de Isabella sobre o pé direito de sua sapatilha, pela perícia, ela considerou isso ser impossível, pois chegou ao apartamento usando um tamanco, deixou o calçado na cozinha e saiu do apartamento descalça. Do prédio, voltou para Guarulhos, para a casa de seus pais. O sapato apreendido teria sido calçado apenas lá. Ela também negou que Isabella tenha ficado ferida em algum momento e não soube explicar nem o sangue no carro nem o vômito de Isabella na camiseta do marido.   Anna ainda negou ter limpado manchas de sangue dentro do apartamento antes de descer. Em momento algum, garante, apertou com a mão o pescoço de Isabella ou encostou um dedo nela. "Mesmo porque, quando subiu, já tinha acontecido tudo", segundo o depoimento.   (Bruno Tavares e Laura Diniz, de O Estado de São Paulo, Carina Flosi e José Luiz Dacauaziliquá, do Jornal da Tarde.)

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