Em busca da top ''Russo-Brasileira''

Scouters' falam até em ''estudos científicos'' para identificar qual tipo fará mais sucesso

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

Janete Friederich, modelo internacional, desfila na SPFW este ano. Foto: Thiago Neme/Divulgação

 

 

"Se uma top model famosa parece alemã com um nariz russo, eu farei um estudo científico e procurarei por cidades que foram colonizadas por alemães e russos no Sul do Brasil, visando conseguir um rosto semelhante aqui", diz o scouter (caçador de modelos) Clóvis Pessoa, de 37 anos, em reportagem publicada no jornal americano The New York Times.

Por que procurar uma alemã com nariz russo no sul do Brasil e não no leste europeu? Pelo que afirma Pessoa e alguns de seus colegas caçadores, a modelo ideal é fruto de uma espécie de "coquetel genético" em que se misturam não só aspectos físicos, mas também psicológicos, sociológicos e até antropológicos.

O "estudo" deve produzir garotas ao mesmo tempo longilíneas como a holandesa Sylvia Geersen, que está no Brasil para desfilar no SPFW, e alegres como Juliana Paes. Segundo os scouters, a vantagem da "russa brasileira" ou da "mulata holandesa" é "o tempero". "Aqui a gente tem sol, florestas, frutas. Nossas modelos são mais alegres, sensuais, caminham com leveza", avalia Pessoa.

Enquanto clica a catarinense Janete Friederich em um estúdio montado na Fashion Week, o fotógrafo Rodrigo Marques explica: "Essas meninas (descendentes de russos, alemães, holandeses etc.) têm estrutura de europeia, pernas grandes, rosto marcado, mas, ao mesmo tempo, cresceram no Brasil, querendo identificar-se com a gostosa do outdoor de cerveja, da novela das oito. Muitas sofrem porque são chamadas na escola de girafa, pezão. A tendência é "abrasileirar" o andar para se identificar com o grupo."

Em sua procura por talentos genéticos, os scouters dizem consultar mapas, livros e sites sobre colonização, aspectos demográficos e até renda per capita da região visitada. Alisson Chornak, de 25 anos, explica que costuma se basear em uma cidade maior e gastar dois ou três dias percorrendo as da redondeza, onde visita escolas. "Já encontrei colônias só de russos no interior. No sul, existe muito um mix de italiana com alemã que, em geral, funciona. É uma questão de formação genética mesmo. Desde a proporção do corpo, tamanho das pernas, traços do rosto."

Novo padrão. Em geral, os "estudos científicos" dos scouters são menos frequentes no Norte e Nordeste do Brasil. "A gente conta com parceiros que nos enviam de lá meninas com o biotipo de modelo. Não adianta ter o quadril grande (mais de 90 cm) nem a perna curta. A geração atual ainda é mais alta: anteriormente, a altura ideal eram sete cabeças; agora, na Europa, já são oito", diz Pessoa.

Dilson Stein, o descobridor de Gisele Bündchen, afirma que "50% das modelos top vêm do Rio Grande do Sul. Se a gente juntar Paraná e Santa Catarina, dá 70%", estima. Depois de falar de descendentes de italianos, poloneses, alemães e austríacos, Dílson diz que, recentemente, a negra Renata Dunlim, de 14 anos,"lindíssima", ganhou um concurso de moda no Sul.

Embora os caçadores defendam a mistura de "todas as raças", as brancas são maioria absoluta nas passarelas. No ano passado, o Ministério Público Estadual firmou um acordo com a São Paulo Fashion Week estabelecendo que 10% dos modelos do evento deveriam ser negros. Em 2008, apenas 8 dos 344 que desfilaram na semana de moda eram negros - 2,3% do total.

Apesar da vitória no concurso, Renata não desfilou na Fashion Week (a possibilidade de uma negra emplacar é menor, mas a culpa é do mercado, ou dos estilistas, ou dos agentes, dependendo de quem deles analisa). Stein diz que ela acabou de ganhar.

Tamanho 41. Consultada sobre o coquetel russo-brasileiro, a modelo siberiana Uliana Tikova, de 19 anos, 1,82 m, 87 cm de quadril, reagiu mau humorada. "Modelos não são drinques para virarem coquetéis!", esbraveja, no camarim, enquanto entrega seus pés tamanho 41 para a podóloga.

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