'Em Bogotá, sistema de ônibus entrou em colapso'

A capital da Colômbia, Bogotá, é conhecida por seu moderno sistema de corredores de ônibus, o TransMilenio, inspirado no BRT de Curitiba. O sistema começou a ser construído em 1998 e foi inaugurado em 2000, durante a administração do prefeito Enrique Peñalosa. Mas, 14 anos depois, enfrenta graves problemas de superlotação. "O TransMilenio começou a entrar em colapso", disse ao Estado Maria Fernanda Rojas, que dirigiu o Instituto de Desenvolvimento Urbano de Bogotá até setembro e esteve em São Paulo para participar do evento "A Cidade e o Jovem - contribuições da arquitetura e do urbanismo para as novas gerações".

Entrevista com

MARINA AZAREDO, O Estado de S.Paulo

23 Março 2014 | 02h04

Na entrevista, concedida na quinta-feira, um dia depois da destituição do prefeito da capital colombiana Gustavo Petro, causada por uma grave crise institucional surgida em decorrência de mudanças no modelo de coleta do lixo, ela fala sobre os principais problemas enfrentados pela rede de transportes de Bogotá, suas possíveis soluções e revela semelhanças com São Paulo. "Além da superlotação, temos muitos casos de agressões sexuais."

Quatorze anos depois da abertura do TransMilenio, como está a mobilidade urbana em Bogotá?

Hoje deveria haver 388 quilômetros de linhas, mas temos apenas 110. Então o sistema começou a entrar em colapso. E, durante todo esse tempo foi eliminada a opção do metrô, por razões políticas. Entendeu-se que, como Bogotá tinha o TransMilenio, que era tão bem-sucedido, o metrô não era necessário. Também temos uma rede de ciclovias de 376 quilômetros, mas não houve um trabalho de manutenção. Elas estão deterioradas.

O que deve ser feito para melhorar a mobilidade na cidade?

Um modelo que se conhece como a intermodalidade, que é integrar os diferentes meios de transporte. Fazer com que uma pessoa possa chegar de casa à estação de metrô de bicicleta, deixá-la em um parque, pegar o TransMilenio, dirigir-se a outro lugar e tomar um outro ônibus. Para isso, é importante ampliar as estações, colocar mais acessos, fazer novas linhas e construir o metrô e teleféricos nos bairros populares. Esse meio de transporte, o teleférico, mudaria completamente a vida das zonas periféricas.

Por que o TransMilenio não supre mais as necessidades da população?

O TransMilenio foi pensado para transportar mais ou menos 30 mil passageiros hora/sentido. Mas hoje em dia está transportando 48 mil pessoas hora/sentido. Ou seja, tem o nível de um metrô. É um sistema que chegou ao limite. Isso ajudou a reforçar a crise que tomou conta da cidade e provocou a destituição do prefeito.

Como estava a cidade antes da adoção do TransMilenio?

Era um desgoverno dos ônibus, com grandes problemas de segurança no trânsito. Os ônibus se perseguiam nas ruas, atropelavam as pessoas, era uma coisa impressionante. E os transportadores eram muito poderosos, tanto que nenhum prefeito se atrevia a mexer com eles. Foi uma situação muito difícil colocá-los em ordem. Os grandes transportadores acabaram se tornando sócios do TransMilenio. Foi a maneira de fazer isso.

E os usuários de carros, como receberam as mudanças?

Bem, ainda há muito apreço pelos carros. No início, o TransMilenio se provou uma solução eficiente, que poderia competir com os veículos particulares, mas durante oito anos não se construiu nada mais. Peñalosa fez a primeira fase, o prefeito seguinte fez a segunda. Depois vieram duas administrações que não construíram nada. Isso diminuiu a competitividade do sistema. A única razão para usar o TransMilenio hoje é o tempo, porque com ele se chega mais rápido a qualquer lugar. Ainda assim, as pessoas preferem evitar a superlotação. E temos tido também muitos casos de agressões sexuais. Então implementaram uma área exclusiva para mulheres em algumas linhas.

Que medidas foram implementadas para resolver o problema das agressões sexuais?

Houve uma prova-piloto em algumas rotas com áreas só para mulheres em horas de menos movimento. Mas o problema se apresenta nas horas de pico, quando está cheio. Então esse piloto dificilmente chegará a resultados.

Qual a gravidade do problema?

Existe um estudo feito em 2011 que mostra que 88% das mulheres dizem ter sido agredidas, insultadas ou recebido um tratamento obsceno no transporte público de Bogotá. E a pergunta era se elas tinham passado por isso no mês anterior ao levantamento. Então o índice é muito alto. Dessas 88% que disseram que sim, 58% disseram que isso havia acontecido no TransMilenio. Uma medida é o espaço só para mulheres, mas também é preciso criar canais de denúncia objetivos, pois muitas mulheres nem sequer sabem que isso é uma agressão.

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