Em blogs, viciados relatam histórias e medos

Dependentes em recuperação e parentes usam internet para dividir experiências, encontrar amigos e superar trauma

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2013 | 02h02

"Hoje passei o dia meio eufórico, vi o passarinho verde e, como aprendi na clínica, isso não é bom. Tenho de me concentrar para manter o meu humor controlado, pois qualquer alteração brusca pode desencadear a vontade de usar drogas. Lembro-me que na ativa a alegria, a tristeza, a euforia, o estresse, o medo e qualquer outra alteração de humor me levavam a usar drogas. Eu não sei lidar com as emoções."

As tentações, o medo, a alegria que vem com cada dia sem recaída inspiram os cada vez mais numerosos blogs mantidos por viciados em drogas ou parentes de dependentes químicos. O trecho acima foi escrito pelo autor do blog Diário de um Adicto, um estudante de Direito de 30 anos, morador de Diadema e ex-usuário de cocaína e crack.

"Tinha acabado de sair de uma internação. A coisa que eu mais gostava - que era usar drogas - me havia sido tirada e eu sentia um enorme vazio", contou por e-mail ao Estado. "Então, criei um perfil e, protegido pelo anonimato da internet, me senti mais à vontade para extravasar meus medos e aflições."

O histórico dos blogs mostra a evolução de alguns e o desespero de outros. Uma súbita interrupção nos textos acaba levando o leitor a se perguntar se, depois de tanto esforço, o autor sucumbiu às drogas novamente.

Dono da página Limpo, só por hoje, o consultor Junior Souza, de 39 anos, já está há sete anos longe das drogas. Sua vida parece um roteiro de filme. Ele fumou maconha dos 9 aos 11 anos e daí para a frente injetou cocaína, provou LSD e passou a usar crack. Ainda menino, virou cobrador do tráfico de drogas e respondeu por nove assassinatos na prisão. Era um criminoso temido em Pernambuco. Agora morando no Maranhão virou exemplo de recuperação. "Como trabalho com grupos de mútua ajuda, a interação que o blog proporciona favorece também a minha recuperação."

Tratamento. Segundo especialistas, dividir experiências, na web ou não, segue a lógica de tratamento de grupos como os Alcoólicos Anônimos (AA). "Fui a uma sessão do AA e, ao contrário de todo lugar que eu ia, não me disseram que tinha de parar. Eu era contra me mandarem fazer as coisas. Não obedecia nem a lei e ia obedecer psicólogo?" Aos poucos, porém, Souza foi largando a bebida, a cocaína, o crack e, por último, a maconha.

Os blogs também ajudam os chamados codependentes, termo usado para designar parentes e familiares que passam a viver em função dos viciados.

A assistente contábil Giuliana Fisher Fatigati, de 28 anos, faz parte de uma rede de cerca de 30 blogueiras que escrevem sobre o assunto. O relacionamento dela com um usuário de crack acabou sem final feliz, com ele de volta às drogas. Além do blog Valeu a Pena, escreveu um livro. "A codependência é uma doença também. Dá a impressão de que você vai suportar. Mas no fim, está arrasada, com a autoestima baixa."

Vivendo há quase metade da sua vida com um viciado em crack, a representante comercial Luciana Laura, de 35 anos, criou o blog 14 anos lutando por um dependente químico. "Por meio do blog, encontrei amigos que me ajudam a passar pelos traumas."

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