'Em bando, os jovens se sentem mais poderosos'

ENTREVISTA

, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

Ivete Gattás, PSIQUIATRA DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA DA UNIFESP

Para a psiquiatra da Infância e Adolescência da Unifesp Ivete Gattás, atos cometidos por jovens em grupo funcionam como ritos de passagem e de afirmação perante os demais. E isso se agrava quando os pais não são tão participativos na educação e, principalmente, na imposição de limites aos filhos.

Por que jovens de classe média, com acesso a educação, privilegiada, cometem atos violentos em grupo? Isso está relacionado à aceitação?

Sem dúvida. Às vezes, uma ousadia serve como um rito de passagem. O grupo já está lá e chega um elemento novo. Para ser aceito, tem que mostrar que é tão bom quanto o resto do grupo. Existem os líderes que podem ser considerados mais manipuladores e sempre há os mais bobinhos, que acabam sendo pegos.

Mas não surpreende que um rito desse tipo seja agredir pessoas na rua a esmo?

Jovens que se juntam para isso devem compartilhar outros traços de comportamento, outras questões até de psicopatologia. A adolescência é um momento não só de explosão hormonal, mas de tentativa de saber até onde se pode ir. Em bando, os jovens são poderosos. Em casos de violência, é comum pensarem que quem não é igual não merece consideração.

E o fato de casos desse tipo geralmente envolverem jovens de classe média?

A gente pode fazer paralelo com outros casos, como o do índio incendiado em Brasília e a empregada agredida na Barra da Tijuca, no Rio, ambos por jovens. Existe uma particularidade na classe média alta e na classe alta. Encontramos alguns jovens com poder aquisitivo e pais pouco presentes e pouco orientadores. Esses jovens acabam tendo acesso a bens e estabelecem uma relação com os pais calcada mais em benefícios materiais que emocionais. São pais pouco presentes, que se sentem culpados e dão aos filhos uma compensação material. Com isso, deixam de dar educação, afeto e limites. Muitos pais passam essa responsabilidade para a escola e acham que sua única obrigação é o provimento material.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.