Em 80 anos de desfiles, Rio já viu de tudo

Competição entre as escolas de samba começou em 1932, na Praça Onze

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h07

Nas oito décadas de desfiles de escolas de samba no centro do Rio, o público já viu de tudo: arquibancada de madeira sobre o mau cheiro do mangue, baiana evoluindo sob sol de meio-dia, corda para evitar que os mais animados invadissem a pista - ainda assim, invadiam - e até chuva de xixi.

No ano em que o sambódromo ganha nova configuração, com as arquibancadas do lado par e seus 12,5 mil lugares a mais, as lembranças de carnavais menos confortáveis vêm à tona. As fotos do arquivo do Estado mostram a evolução das acomodações, desde o tempo em que só se assistia em pé ou sobre um caixote de madeira alugado por cinco cruzeiros.

A competição começou em 1932 na Praça Onze, santuário da cultura afro-brasileira e das escolas. Com o arrasamento da praça, para a abertura da Avenida Presidente Vargas, os desfiles passaram, a partir de 1943, para a Rio Branco. De lá, oscilaram entre a própria Presidente Vargas, em diferentes trechos, e a Presidente Antônio Carlos (entre 1974 e 1976, por causa das obras do metrô).

Nos primórdios, lembra o jornalista Sérgio Cabral, era preciso aguentar até 24 horas em pé - o desfile não tinha hora para acabar, cada escola decidia seu tempo. "Em 1951, levei minha primeira cacetada da polícia, disputando um lugar na corda para ver desfile", conta Cabral, autor do livro de referência Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Dois anos depois, a prefeitura resolveu colocar um tablado de madeira para facilitar a visão, mas o público teve de aturar o barulho dos sapatos dos foliões abafando os sambas. O trabalho de montagem e desmonte das arquibancadas para o público, surgidas em 1962, durava dois meses, e gerava reclamações, porque complicava o trânsito bem nas avenidas mais movimentadas do centro.

Uma avenida só para ele. Em 1978, os sambistas conseguiram um lugar só para seus desfiles: a Marquês de Sapucaí, uma via sem qualquer relevância para a cidade no resto do ano, que em fevereiro ganha dimensão mundial. "Foi uma conquista grande, o reconhecimento de que o carnaval é tão importante que existe uma avenida só para ele", diz a pesquisadora Rachel Valença.

Houve perdas também: os desfiles ficaram mais organizados, com todas as suas regras e a cronometragem antiatrasos, mas perderam o calor da plateia, gradualmente afastada. Quando eram na rua, as famílias de quem desfilava iam assistir: levavam água para lhes dar durante a passagem e os aplaudiam.

Se por vezes atrapalhava os organizadores, a informalidade permitia que um desfile empolgante arrastasse uma multidão atrás, sambando e cantando. Natal, lendário presidente da Portela, não gostava: reclamava da aglomeração e ameaçava cancelar a apresentação. Em 1968, foi a polícia que entrou em cena: a Unidos de Lucas, com enredo sobre escravidão, levou uma encenação em que um senhor de engenho açoitava um negro. Os policiais acharam que era briga.

Até o sambódromo, não havia banheiro. Na Presidente Vargas, quando o público se sentava sobre o mangue, as necessidades eram feitas sem sair do lugar. "Era muito prático", brinca o pesquisador Felipe Ferreira.

Na Sapucaí pré-Niemeyer, o desavisado que passasse debaixo da arquibancada de madeira podia levar chuva de xixi na cabeça. As pessoas chegavam de manhã para guardar lugar e não saíam de jeito nenhum. Em 1984, o sambódromo é, enfim, aberto.

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