Em 6 meses, nº de haitianos cresce 4 vezes na cidade

Atraídos pela promessa de melhores empregos e salários, pelo menos 6 mil deles já cruzaram o País com destino a São Paulo

ARTUR RODRIGUES , NATALY COSTA, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h05

A escada da Pastoral do Migrante, no Glicério, centro de São Paulo, fica repleta. Na Cáritas Brasileira, também no centro, a fila vai até a calçada. Nos dois lugares, ouve-se idioma parecido ao francês, que indica a nacionalidade da mais nova onda migratória na cidade: os haitianos.

O consulado do país estima que, desde janeiro, a comunidade haitiana na cidade passou de 1,5 mil para 6 mil pessoas. Como a maioria entra pela fronteira do Peru, o destino costumava ser Acre ou Amazonas. Mas a promessa de melhores empregos em São Paulo passou a atraí-los.

Para o advogado do consulado, Edison di Paola, o aumento da migração também se deve ao fato de que muitos que chegaram entre 2010 - após o terremoto - e o ano passado estão agora conseguindo documentos como CPF. "Com isso, passam a ter mais facilidade para viajar."

A sede do consulado, na Avenida Paulista, virou uma espécie de agência de empregos, onde empresários sensibilizados com a situação do país caribenho têm contratado imigrantes para trabalhar em obras, cozinhas industriais, fazendas. Mas, mesmo quando ganham acima do salário mínimo, muitos se sentem explorados. "Nós os lembramos que o salário mínimo aqui é de R$ 622 e no Haiti, U$ 100 (o equivalente a R$ 200)", diz Paola.

As expectativas dos haitianos são infladas por quadrilhas que cobram para trazê-los ilegalmente. "Eles vêm com a promessa de coiotes de que o Brasil é a bola da vez, que ganharão em dólar. Quando chegam, a realidade não é bem essa", diz o padre Mário Geremia, coordenador da Pastoral do Migrante. Segundo ele, questões culturais os fazem recusar empregos. "Eles não aceitam trabalho em confecção, por exemplo, por julgarem que é atividade feminina."

Dados. Até janeiro, o Brasil deu 3.141 autorizações de residência permanente em caráter humanitário a haitianos, segundo o Conselho Nacional de Imigração (CNI) do Ministério do Trabalho. Há outros 1.400 pedidos em tramitação. Comparando com outras nacionalidades, haitianos têm certa facilidade para mudar para o País. Desde que não tenham antecedentes criminais, podem pedir visto humanitário na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe. De janeiro a agosto, foram 711. O País tem cota de 100 autorizações por mês, mas quem já está no Brasil e não fez o pedido no Haiti perde o direito.

Muitos ainda chegam ilegalmente por terra. Após pressão brasileira, o Peru passou a exigir vistos de haitianos. Isso porque coiotes, que chegam a cobrar US$ 5 mil por transportado, usavam a fronteira da Amazônia. Muitos pedem refúgio assim que chegam a São Paulo. A Cáritas - que atende média de 20 haitianos por dia - encaminhou 583 pedidos no primeiro semestre. "A intenção é regularizar todos", informou o Ministério da Justiça.

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