Em 4h, relatos de execução, medo e cenas de terror

Testemunhas dizem ter visto policiais militares matando 2 supostos bandidos que já estavam rendidos no chão; versão oficial é de tiroteio

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2012 | 03h05

A série de assassinatos ocorridos na Grande São Paulo em apenas quatro horas na noite de segunda para terça-feira veio acompanhada de relatos de execução, cenas de terror e muito medo. Segundo testemunhas, pelo menos dois homens foram assassinados por policiais fardados das Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas (Rocam) quando já estavam rendidos no chão.

O caso aconteceu em Embu das Artes. Segundo a versão da PM, às 22h30 soldados encontraram a dupla após receber uma denúncia de roubo a pedestres. Os rapazes teriam reagido e atirado ao tentar fugir. E caíram da moto na Rua Babilônia.

Um deles, Rodrigo Neves de Oliveira, de 20 anos, morreu no local. "Policiais viram que ele estava caído e deram vários tiros na cara", disse um vizinho do local. Já André Felipe Oliveira Lima, de 16, foi levado ao hospital, mas não resistiu.

A PM informou que apreendeu com a dupla dois revólveres e a bolsa pertencente a uma mulher assaltada minutos antes. No bairro, ambos eram conhecidos como "ladrões pé de chinelo".

Em nota, a corporação informou que "não compactua com irregularidades praticadas por seus integrantes" e inquérito vai apurar o caso. Na resposta ao Estado, solicita que testemunhas procurem a Corregedoria.

Mais violência. Testemunhas também contam que passava da meia-noite quando homens em um Fiat Stilo prateado atiraram em três pessoas na esquina da Rua Tereza Montez Sanches, em Taboão da Serra. Elas tentaram escapar pulando muros de casas.

O desempregado Fernando Pereira de Melo, de 23 anos, foi achado morto na lança do portão de uma residência. Ele não tinha antecedentes criminais. Já os outros dois baleados, que sobreviveram ao ataque, tinham passagem por roubo.

Por volta da meia-noite, homens também em um Stilo prata tentaram matar um grupo na Rua Sati Nakamura. Um homem se machucou tentando fugir e outro foi baleado na perna.

À 1h30, quatro pessoas que estavam na Rua Nicolau Gentile, também em Taboão, foram baleadas por homens em um Logus preto. Fabio Julião Santos, de 32 anos, e José Francisco Gomes, de 31, com passagem por porte de drogas e irmão de um PM, não resistiram.

O último caso em Taboão foi às 2 horas. Dois homens sem antecedentes, Alex Sandro Pereira, de 29, e Ricardo Evangelista Pereira, de 31, foram mortos na Rua João Antonio da Fonseca. Testemunhas viram um carro preto no local.

Já na capital, dois corpos não identificados foram encontrados à 1h50 na Rua Barcos Rabelo, no Jardim Irene, zona sul.

Familiares e amigos das vítimas acusam policiais. "Policiais estão matando e não estão matando só bandido. Estão indo na rua e matando qualquer um que encontram pela frente", afirmou um rapaz, amigo de Fabio Julião Santos e José Francisco Gomes.

A sobrinha de Ricardo Evangelista Pereira disse que ele não tinha nenhuma relação com o crime. "Só estava na frente de casa conversando."

Colegas de batalhão do soldado Hélio Miguel Gomes de Barros disseram também acreditar que a morte tenha sido uma ação do crime para vingar outros casos de resistência seguida de morte. "Tivemos vários casos de resistência neste ano. Todos de criminosos. Foi um contra-ataque dessa guerra urbana", disse um PM no enterro do colega. / ARTUR RODRIGUES, BRUNO RIBEIRO, RICARDO VALOTA

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