Em 2009, Lula fez discurso que inflamou os quartéis

Após reajuste de 68,4% no DF, disse: 'Corremos um risco, viu? A partir daqui, vamos ter todos os Estados querendo'

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2012 | 03h03

Com a então ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) a tiracolo, o presidente Luiz Inácio Lula Silva reuniu 7 mil policiais militares e bombeiros no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, no dia 6 de novembro de 2009. E insuflou o movimento grevista com sua fala.

Lula fez ali um discurso marcante, como se fosse um líder sindical que havia acabado de conseguir arrancar do governo reajuste de 68,4% para os salários dos policiais. Foi aplaudido de pé pelos presentes, que gritaram "Lula, Lula". Tratava-se, na verdade, da festa de sanção de uma lei que reajustou em quase 70% os vencimentos de PMs e bombeiros de Brasília, elevando seu teto salarial para cerca de R$ 4 mil.

Da festa, participaram ainda o governador de Brasília, José Roberto Arruda (DEM), além de ministros, secretários e parlamentares. Menos de um mês depois, seria revelado o escândalo que ficou conhecido como Mensalão do DEM.

No discurso, Lula acabou por agitar PMs Brasil afora, ao dizer que eles deveriam ter um teto de salário digno da profissão. "O que vale um bombeiro? O que vale um soldado na rua? Ora, meu Deus do céu, a gente só se dá conta na hora do perigo, a gente só se dá conta na hora do infortúnio. E, como a gente sempre torce para que não tenha nenhum infortúnio, é importante a gente pagar bem todos os meses para que a gente tenha tranquilidade 365 dias por ano", apregoou.

Logo em seguida, virou-se ao então governador e disse: "Nós corremos um risco, viu, Arruda? Porque a partir do que aconteceu em Brasília nós vamos ter todos os Estados querendo", disse Lula no palanque montado no Ginásio Nilson Nelson.

A partir do discurso de Lula a favor do reajuste, parlamentares se animaram a tocar no Congresso projetos que poderiam agradar a policiais e bombeiros, cujas famílias numerosas costumam render muitos votos. Nem precisaram fazer muito esforço porque já tramitava no Congresso emenda constitucional sobre o assunto, apresentada em 2007 pelo deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). A emenda constitucional de Faria de Sá ganhou o nome de PEC 300, tornou-se famosa e conseguiu unificar as corporações policiais em torno de uma bandeira, a do piso salarial.

Dilma. Ao assumir, Dilma Rousseff determinou à sua base eleitoral que impedisse a votação da PEC 300, pois sabia que, se ela chegasse ao plenário, seria aprovada, visto que os parlamentares não comprariam briga com policiais. Para justificar a não votação, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), alega que não há verba no Orçamento.

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