Em 10 anos, novo perfil do crime em SP

Em 10 anos, novo perfil do crime em SP

Mulheres são cada vez mais vítimas e crescem as mortes dentro de casa. 27% dos homicídios são com facas

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2011 | 00h00

Em 1999, no auge da epidemia de assassinatos em São Paulo, na região do Jardim Ângela, zona sul, jovens morriam e matavam motivados pela rivalidade entre bairros vizinhos, como Jardim Planalto, Vila Tupi e Jardim Kagohara. Nomes como Chico, Belo e Nenga, todos com menos de 25 anos, eram alguns dos assassinos que tentavam firmar-se como "os caras". Segundo estimativas da polícia, a rixa entre grupos locais provocou mais de 150 mortes entre 1993 e 1998 na região.  

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linkCai diferença de homicídios entre bairros

O combustível da engrenagem que fazia os homicídios se propagarem era quase sempre o mesmo. Um lado matava o integrante do bando rival, que depois se vingava, em um ciclo incessante de assassinatos. Nesse ambiente de tensão, repleto de jovens armados nas ruas, um olhar torto podia significar uma ameaça de morte. E matar antes de morrer era uma das escolhas em territórios onde corpos amanhecidos cheios de balas eram fatos banais, assim como enterros nos fins de semana. Foi um tipo de comportamento que se propagou como uma doença contagiosa, marcando o auge da epidemia de homicídios na cidade, quando as taxas cresceram mais de 900% entre 1960 e 2000.

Com a interrupção dessa engrenagem de violência, o perfil das mortes se transformou. Saíram de cena as disputas sangrentas entre jovens armados, os ciclos incessantes de vingança, os tiroteios em plena luz do dia e as rixas entre traficantes. Na São Paulo apaziguada, que reduziu os homicídios em 78% nos últimos dez anos, cresceu, proporcionalmente, um tipo diferente de assassinato ainda a ser compreendido pelas autoridades. Descobrir como enfrentá-lo será tarefa decisiva para a cidade conseguir ficar abaixo da casa dos 10 assassinatos por 100 mil.

No ano passado, aumentou o porcentual de mulheres entre as vítimas. Eram 7% dez anos atrás, chegando a 16% em 2010. Cresceu também a proporção de armas brancas como objeto de crime, saltando de 4% para 27% no mesmo período. As mortes dentro de casa subiram de 10% para 20% dos casos. Houve ainda redução de vítimas com passagem na polícia.

Os resultados foram levantados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) com base em 549 homicídios esclarecidos entre 2009 e o ano passado. Ainda inéditos, serão publicados neste ano em um anuário estatístico. Comparados aos balanços feitos em anos anteriores, permitem orientar a ação policial em São Paulo.

"Estamos em fase de diagnóstico. Entre outras coisas, os dados mostram que aumentou a dificuldade para se conseguir armas de fogo. Também existem mais casos motivados por brigas cotidianas e familiares. Isso pode ajudar a entender o crescimento das mulheres entre as vítimas. Mas elas também estão cada vez mais atuando no tráfico. O fato é que o perfil dos assassinatos mudou", diz o delegado Marco Antônio Desgualdo, diretor do DHPP.

Drogas. A comparação entre as motivações para os assassinatos encontradas entre 2000 e 2010 ajuda a levantar hipóteses. Houve uma forte redução dos casos relacionados a disputas de pontos e dívidas de droga. No ano 2000, 38% das mortes desvendadas pelo DHPP apontavam as drogas como a motivação principal. No ano passado, eram só 7%, abaixo até mesmo dos casos passionais, que motivaram 9% dos casos.

A Lei do Desarmamento, que em 2003 tornou crime inafiançável a posse irregular de arma de fogo, mudou o comportamento dos jovens, diminuindo a tensão no ambiente. A prisão dos chamados matadores contumazes, que se tornaram alvos do DHPP a partir de 2000 e estavam inseridos nesses ciclos de vingança, também foi fundamental para acalmar as periferias.

É nesse novo contexto em que os casos com facas, a vitimização crescente de mulheres e as mortes dentro de casa ganham relevância. São ocorrências que refletem rompantes de emoção, muitas vezes embalados por álcool e drogas - casos relacionados a família e brigas. "No extremo leste, uma das regiões que mais reduziu homicídios, a maioria das mortes hoje envolve problemas dentro de casa", diz o coronel Marcos Chaves, comandante da PM na capital. São assassinatos isolados, desvinculados das disputas territoriais de antigamente. O que não significa que as rixas causadas por drogas não continuem, mesmo mais longe das periferias. Como o assassinato ocorrido na quinta-feira, o primeiro da semana. Um morador de rua, ainda não identificado, foi morto a paulada ou pedrada. O local, próximo da Ponte Eusébio Matoso, na zona oeste, era ponto para o uso de crack.

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