''Elite impôs ideia dos veículos motorizados''

Na semana em que SP ganhou a 1ª ciclorrota, especialista lembra que ainda seguimos modelo da década de 30

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Eduardo Vasconcellos, sociólogo, engenheiro e consultor da Associação Nacional de Transportes Públicos

Os 15 quilômetros de ciclorrota que a cidade ganhou na última quinta-feira confundiram alguns paulistanos. Há quem pense que bicicleta é para ser usada apenas no fim de semana. Outros não entendem por que a velocidade dos carros nessas vias deve cair para 30 km/h ou 40 km/h. Alguns cicloativistas consideram o trajeto insuficiente.

Não é para menos. Para o sociólogo e engenheiro Eduardo Vasconcellos, de um dia para o outro não se muda uma mentalidade construída em 80 anos: a de que quem não tem carro não tem valor. "A ideia de que veículos motorizados e individuais são os mais adequados foi imposta pela elite do País desde a década de 30 do século passado", diz.

Por que temos tanta dificuldade de conviver com bicicletas?

É preciso fazer um histórico, pelo ângulo cultural e ideológico. Desde a década de 30 do século passado, seguimos o modelo americano de desenvolvimento. Nessa época, a elite definiu que a prioridade seriam as rodovias e as pessoas deveriam comprar veículos.

Quais as consequências disso?

Todas as formas de transporte que não significavam modernidade eram assimiladas como inferiores. Então, andar a pé e de bicicleta se tornou uma coisa atrasada e, de forma mais grosseira, coisa de gente pobre. O sistema cresceu transmitindo a imagem de que quem é trabalhador e competente deve ter um carro. Assim, foi imposto ao desenho urbano brasileiro o formato favorável ao automóvel.

É possível mudar esse modelo e a mentalidade do paulistano?

O modelo já venceu. Os dois últimos governos federais contribuíram muito para isso, incluindo a motocicleta, apesar de ser um veículo tão perigoso. Andar a pé e de bicicleta é hoje um nicho das praias e nas cidades menores. Em outros lugares, a bicicleta é usada quase pedindo licença. Então, imagino que nos próximos 20 ou 30 anos nenhuma grande mudança estrutural vá acontecer.

A influência dos europeus, que consideram o uso da bicicleta "chique", "verde", pode ajudar?

A proposta de uma mobilidade verde tem chance de fazer alguns gols no jogo. Não é fácil desconstruir um sistema de 80 anos, mas os movimentos na Europa ajudam, porque o brasileiro admira o que vem de fora.

O que seria uma meta possível para São Paulo?

Numa cidade grande brasileira hoje, de todos os deslocamentos em um dia, só 2% ou 3% são de bicicleta. Uma meta perfeitamente possível é aumentar a média para 10%. As grandes cidades europeias têm algo como 25%, mas são cidades menores.

A ciclorrota ajuda?

Ajuda bastante. O mais importante é chamar a atenção para os conceitos de equidade, qualidade de vida e segurança, mais do que para o trânsito. As ruas e as calçadas são públicas e os modos mais vulneráveis têm de ser protegidos.

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