Elevador de obra despenca e mata 9 pessoas na BA

Há suspeita de falha mecânica; Ministério Público do Trabalho disse que equipamento estava ''ultrapassado''

Tiago Décimo / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2011 | 00h00

Nove operários morreram na manhã de ontem em Salvador quando o elevador de serviço onde estavam, na construção do Edifício Empresarial Paulo VI, despencou 65 metros. A obra é da Construtora Segura e fica no bairro Caminho das Árvores, região nobre da capital baiana.

Os trabalhadores - três carpinteiros, dois armadores, dois pedreiros e dois ajudantes - iam para a última laje já construída, no 28.º andar dos 33 previstos, para começar o trabalho, às 7h30. Pouco depois do 20.º andar, o elevador que os levava se soltou da estrutura instalada do lado externo e despencou. Era a terceira vez que o equipamento era usado no dia. Ocupantes da cabine morreram na hora.

Agentes do Departamento de Polícia Técnica, que periciaram o local, afirmaram que a análise preliminar aponta falha mecânica. A suspeita é de que uma peça que traciona os cabos tenha se partido, deixando o equipamento sem sustentação.

O laudo da perícia, porém, só deve ser conhecido em 30 dias. "Caso seja comprovada imprudência ou imperícia, o responsável pode responder por homicídio culposo (sem intenção)", disse a delegada Jussara Souza.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção e da Madeira no Estado da Bahia (Sintracom-BA), José Ribeiro, o acidente revela descuido com o equipamento. "É uma mostra de que as empresas não se preocupam com a segurança dos trabalhadores."

Fiscais do Ministério Público do Trabalho estiveram no local e afirmaram que o equipamento está defasado. "Este elevador está muito ultrapassado e não poderia mais ser considerado dentro das normas de segurança", afirmou o fiscal Flávio Nunes.

Para o presidente da construtora, Manuel Segura Martinez, não houve falta de manutenção. "Eu mesmo usava esse elevador todo dia." Funcionários corroboram a versão do empresário. "O elevador foi vistoriado na semana passada", disse o carpinteiro José Alves Pinto. "Trocaram até um dos cabos."

Em nota, a empresa informou que "o equipamento estava funcionando dentro dos parâmetros de segurança e em perfeito estado de conservação".

As obras foram paralisadas pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município. Mas, segundo o órgão, as licenças e alvarás da obra estão regulares.

Entre 2007 e 2009, último ano em que o Ministério da Previdência Social divulgou balanço nacional de acidentes de trabalho, o número de mortos em serviço caiu 12%, de 2.845 para 2.496 casos. No mesmo período, o número de acidentes cresceu 9,6%, de 659.523 para 723.452.

Gritos. Por falta de espaço, o carpinteiro Adailton José dos Santos, de 43 anos, e outros dois funcionários não entraram no elevador. "De repente, veio tudo abaixo", lembrou Santos. "Nunca mais vou esquecer os gritos."

"Todo mundo sabia que o elevador era para 8 pessoas, mas subia sempre com 12, 13 e dava problema todo dia", acusou o operário Washington Santana dos Santos, que perdeu o pai.

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