Eles viraram notícia em 2010. Sem querer

Seis pessoas anônimas que por motivos variados foram parar nas páginas dos jornais neste ano contam o que aconteceu depois que a fama repentina passou

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2010 | 00h00

Com a tragédia, surgiu solidariedade. Na cidade histórica do interior do Estado, uma enchente sem precedentes levou casas, pontes, igrejas. Um golpe em seus moradores que seria ainda maior não fosse um grupo de jovens mobilizado desde o primeiro instante para salvar o que fosse possível. Resgatou homens, mulheres, crianças - resgatou também a autoestima de um município que precisava dela.

Em momentos de tensão, a mão firme de quem sabe o que faz. Foi a confiança de fazer o trabalho direito que levou uma policial a não desistir de um telefonema até ter a certeza de que a situação exigia enormes cuidados. E a vida de uma criança foi salva.

Uma imagem inspiradora, um projeto que deu certo. A natureza bem compreendida e, através da cena captada por um fotógrafo e da percepção de um músico, um prêmio e reconhecimento internacional.

O político é folclórico, a dançarina é reconhecida. Apenas o necessário para jogar mais pimenta num caldeirão que teve em São Paulo outro capítulo: pequeno, mas marcante capítulo contado ao redor de um poste de dança, num hotel da zona sul.

O bom humor e a boa sacada, a piada interna que atingiu proporção incrível - e pode indicar novo caminho profissional, num momento em que a tecnologia torna esse o maior dos desafios.

Minutos decisivos que levam a situações desagradáveis. Que, infelizmente, não podemos adivinhar. Um pouco do que foi o ano que termina, por meio das histórias de anônimos que, mesmo sem querer, acabaram nas páginas dos jornais.

 

Heróis ensinam policiais

Foram 20 horas seguidas com remos nas mãos, percorrendo canais lamacentos onde antes havia ruas, quintais e telhados. O rio subira 10 metros, alagando São Luiz do Paraitinga toda. Naquela manhã de janeiro, ninguém estava pronto para sair de casa. Exceto um grupo de jovens que, aos primeiros pingos d"água, já tinha os botes prontos. Entre crianças da cidade, são até hoje chamados de "anjos".

 

"Heróis do rafting" é outra forma de nomear o grupo de 30 jovens que salvou ao menos 500 pessoas das chuvas que destruíram a cidade, em 1º e 2 de janeiro. Assim que a água baixou, eles perceberam o sucesso: apesar dos estragos, nenhuma morte.

Ao longo do ano, deram "mais de 30 entrevistas", foram homenageados no Palácio dos Bandeirantes e na praça da cidade. E, há duas semanas, começaram nova fase: os heróis do rafting agora dão treinamento para bombeiros da região.

 

"Fizemos oficinas para ensinar a atuar em correnteza intensa", conta Hélio dos Santos, que participou do salvamento. "Mudou um paradigma na cidade. Hoje, somos muito respeitados."

 

PM virou ídolo em Itanhaém

Por cinco minutos, a soldado da Polícia Militar Elenice Gonçalves Louzada, de 35 anos, pensou tratar-se de trote. Mas a criança, com voz trêmula, era coerente. Não errava a idade, nem mentia o telefone. "Tia, não é trote. Eu fui sequestrada", ela dizia, começando a ficar chorosa. Era verdade: a PM lidava com um sequestro. Do outro lado da linha, uma menina de 8 anos, mantida em cativeiro há 15 dias pela prima. Elenice evitou a possível tragédia: ela acreditou.

 

Mais três minutos foram suficientes para a garota E.K. indicar o telefone de familiares. A PM descobriu o cativeiro, no Parque São Lucas, zona leste de São Paulo, onde prendeu a prima. Seu comparsa, Manoel de Araújo Filho, fugiu e ainda está à solta. Três semanas depois do ocorrido, a soldado encontrou E. K. duas vezes. "Na última vez, em um programa de TV, ela me contou que agora quer ser policial."

 

Em Itanhaém, no litoral sul, onde Elenice vive, a PM virou celebridade. "Todos me parabenizam por ser policial. Ganhei até buquê de flores dos vizinhos." No mercado e até na formatura da filha, ela foi parada para tirar fotos com desconhecidos. "É um carinho muito grande que vou levar comigo por todo 2011."

 

Fama rendeu emprego

 

Apesar de ter dado aulas de pole dance - a "dança do poste" - até para atriz global, a apresentação que mais repercutiu na carreira da dançarina Alexandra Valença, de 29 anos, está ligada à política internacional. Com top e shortinho brancos justíssimos, Alexandra foi atração na visita do premiê italiano Silvio Berlusconi ao Brasil, em junho. A princípio, ela teve medo de escândalos internacionais. Hoje, até torce para que eles ocorram.

 

"Ser "a loira do Berlusconi" só trouxe benefício. E, sempre que falam nele, lembram de mim", disse Alexandra, recifense do tipo mignon (1,57 metro, 48 kg). "Virei referência e, como meu ideal é alçar a dança à categoria de arte, toda publicidade ajuda."

 

Ter virado "referência" rendeu a ela emprego como coreógrafa em uma casa noturna no centro. "A visão do pole mudou. Os clientes começam chamando de "gostosa" e terminam batendo palmas com respeito", acredita. Ainda hoje, ela garante ter contato com a equipe do premiê. "Ele quer incluir pole dance em um programa de TV. Estamos negociando." Na última vez em que falou com seus assessores, meses atrás, a dançarina ouviu que Berlusconi havia mandado um "beijo para a artista".

 

Piada vai parar no NY Times

 

Ele fez um "trending topic" do Twitter, o assunto mais falado em um certo momento, virar piada de alcance mundial. Era a Copa do Mundo da África do Sul e a frase "Cala Boca, Galvão" atingia o auge da popularidade. O produtor de vídeos paulistano Fernando Motolese, de 27 anos, percebeu o potencial e criou o que ganhou fama de "a maior piada interna da história".

 

Milhares de brasileiros riram juntos dos estrangeiros que divulgaram a mensagem de uma falsa campanha para salvar os "Galvão Birds", papagaios inexistentes que - todos sabíamos - faziam referência ao narrador da Rede Globo. As 550 mil visualizações do vídeo em dois dias renderam a Motolese entrevista até para o The New York Times.

 

Motolese percebeu que poderia fazer disso um negócio. Hoje, quer viver de "antimarketing": criação de piadas na internet sobre empresas e marcas, para que os próprios alvos possam revertê-las em campanhas positivas. "A crítica de produtos pode ser rentável. Assim que a Globo aceitou a piada e o Galvão Bueno falou do assunto no ar, a gozação cessou e ele saiu por cima. Foi capa de revistas semanais", explicou. "É o conceito que pretendo utilizar em projetos futuros."

 

'O pior foi perder o show'

 

O farmacêutico Ricardo Duarte, de 31 anos, saiu mais cedo do trabalho para assistir ao show do Rush, na véspera de feriado prolongado, em 8 de outubro. Percorreu apenas 500 metros em sua Pajero preta, até parar atrás de um ônibus. Em poucos instantes, ele seria responsável pelo fim da maior perseguição policial do ano em São Paulo.

 

Ocorreu na Barra Funda, zona oeste, durou 20 minutos e deixou nove automóveis batidos - o último deles, a Pajero de Duarte. O foragido Wellington dos Santos roubara um Fiesta na cracolândia e só parara quilômetros adiante. Transmitida ao vivo pela TV, a ação foi comparada aos "Vídeos Incríveis" americanos.

 

Duarte viveu momento tenso, perseguido por um policial com pistola .40 na mão. Com sangue frio, o farmacêutico se vira e sinaliza o criminoso. Mais alguns segundos e os policiais conseguem imobilizá-lo. "No fim, o pior mesmo foi perder o show do Rush. Não me conformo", disse. O farmacêutico ainda aproveita para esclarecer: não, não foi ele quem chutou o ladrão, assim que a polícia o capturara. "Cansei de receber parabéns por isso. Mas foi meu amigo, que também estava de preto", contou. E deixa escapar um "infelizmente..."

 

De foto a prêmio nos EUA

 

São 38 pássaros, que pousaram em cinco fios de alta tensão em um fim de tarde em Santana do Livramento (RS). Pareciam notas musicais numa partitura. Primeiro, a cena virou foto, do fotógrafo Paulo Pinto, do Estado. Depois, virou vídeo e música, do publicitário e músico Jarbas Agnelli, de 47 anos. Ganhou o mundo.

 

Em outubro, Agnelli foi o único brasileiro a ter seu trabalho, Birds On The Wires, escolhido para apresentação nas quatro filiais do Museu Guggenheim no mundo, entre 23.358 outros vídeos. "A foto me "soou" como música." Nos primeiros dias, o paulistano colecionou comentários em blogs. "Tinha gente que dizia que não saía de casa sem ouvir a música e tocava para os filhos pequenos."

 

A ideia de musicar a natureza ainda vai render outros projetos. "Estou produzindo um documentário com 12 cenas da natureza e de realizações humanas que foram musicadas. Será a "sinfonia" do movimento das formigas e dos carros em rodovias, por exemplo. Lançaremos até abril", adianta. "Esse projeto repercutiu tanto que não teria como não fazer algo mais."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.