Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Eles têm DNA de papai noel

Em famílias cheias de bons velhinhos, não há tempo para ceia de Natal

Edison Veiga, de O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2011 | 03h05

Família de Papai Noel não é fácil. "Na minha casa, não tem ceia na véspera de Natal. É dia de muito trabalho. Ho-ho-ho", é o que dizem os bons velhinhos, cada qual com suas palavras, de forma unânime. Pudera: depois de ralar em novembro e dezembro - shoppings da Grande São Paulo pagam, em média, R$ 10 mil pelo período -, enfrentando com a pesada roupa vermelha o calor dos trópicos, é com o saco cheio (de presentes!) que eles passam a virada para o dia 25 de dezembro. "Faço 16 entregas, de 15 minutos, por R$ 400 cada, tudo na região de Moema", comenta Domingos da Ressurreição, de 65 anos, Papai Noel há oito.

Mas é uma rotina que ele já conhecia de perto. Domingos é irmão gêmeo de José (são os da foto à dir.). E José começou a encarnar a figura natalina bem antes, desde 1994. "Achei um papelzinho no chão lá em Santo Amaro, um anúncio que dizia que precisava de Papai Noel. Já tinha barba grande, cabelo grande, barriga grande. Era completinho", recorda. "Virei Papai Noel. O mais simpático de todos, garanto. Ho-ho-ho."

Paulistanos do bairro do Planalto Paulista, ambos trabalhavam em lojas do Largo Treze, em Santo Amaro - hoje, estão aposentados e dedicam-se somente ao ofício natalino. "A ceia lá em casa é na noite do dia 25, depois do corre-corre", conta Domingos. "Aí eu aparo a barba e vou para a casa do meu sobrinho em Caraguatatuba. Então, só uso bermuda e fico descalço o mês de janeiro todo."

Nos últimos anos, o serviço natalino foi assumido também pela sua filha, Alcione Miriam, de 29 anos. Ela, que ao longo do ano trabalha como recreadora infantil em eventos, interpreta a figura de Mamãe Noel. "Minha função é organizar a criançada e arrumar a fila", comenta Alcione, que não descuida do pai e do tio por nenhum instante - checa se o cabelo está penteado, se o cinto está bem afivelado, se a barba está alinhada. O trio atua sempre junto. "O shopping que nos contrata leva logo o pacote", diz José.

O fato de serem gêmeos sempre rende boas risadas. "Houve uma vez em que meu irmão tinha almoçado feijoada em um restaurante próximo do shopping. Depois, quando passei por lá, o atendente se surpreendeu: disse que se eu desse conta de 'mais um prato' não precisaria pagar. Comi quietinho e ganhei 'a aposta'", lembra Domingos. Brincadeiras à parte, ser "igual" tem lá suas vantagens. "Se um dia não posso fazer uma visita para a qual fui contratado, meu irmão vai no lugar e ninguém fica nem sabendo", comenta Domingos. "E vice-versa."

Não são o único exemplo de parentes na profissão. A família Sakatauskas, de Osasco, bem que poderia ter o sobrenome Noel. Nada menos do que quatro irmãos cultivam barba, cabelo, barriga e bom humor para agradar a criançada no período das festas de fim de ano. O mais velho, Vitautas, começou primeiro, há 17 anos. Hoje, ele tem 78 e muita energia para abusar dos ho-ho-hos. Depois veio José, de 63 anos. "Mas, desde 2005, quando tive um problema de saúde e passei o Natal no hospital, só faço entregas. Não dou conta mais da rotina de shopping", afirma.

Alberto, de 75 anos, também já arriscou interpretar o bom velhinho algumas vezes. E Carlos, de 57, atualmente reveza os turnos com Vitautas no shopping que os contrata para o período. "Não adianta. Ser Papai Noel está no sangue. No meu caso, a família parece que contamina, né?", comenta o caçula.

"Há 22 anos, eu tinha barba loira curta e era magro. Aí, me ofereceram um dinheirinho para bancar o Papai Noel em um evento. Aceitei e não parei mais", conta Wladimir Cassoni, de 60 anos, paulistano da Bela Vista. "Agora, a barba é branca de verdade e a barriga, original." Sete anos atrás, ganhou a companhia da irmã, Vera Lúcia Patresse, de 61 anos. Ela é Mamãe Noel. "O que não conseguimos ainda foi convencer meu outro irmão, Carlos, de 63 anos, a também viver o bom velhinho", diz Wladimir. "Ele seria ótimo no papel. Mas não adianta: como mora no litoral, não quer nem saber de deixar a barba e o cabelo crescerem. Por dinheiro nenhum."

Não basta só deixar crescerem. Em geral, os Papais Noéis gastam mais de uma hora por dia cuidando do visual - e isso ao longo de todo o ano, não somente no período do trabalho natalino. É preciso lavar a cabeleira com um xampu especial para os fios não amarelarem e passar creme na barba - deixando-a macia para ser puxada pelas crianças.

Projetista de máquinas aposentado, Wladimir agora passa o ano entre Papai Noel e coelhinho. "É que temos uma fábrica de chocolate artesanal em casa. Então, no começo do ano, a correria continua, de olho na Páscoa."

Mas em família de Papai Noel há espaço para "ser" Papai Noel? Ou é aquela coisa de não querer levar trabalho para casa? "Tenho três netos", derrete-se José da Ressurreição. "O mais novo vive pedindo para eu pôr a roupa de Papai Noel e tirar foto com ele." Pai de dois filhos adultos - um de 35 anos e uma de 33 -, Wladimir torce tanto para ter um neto logo que já decidiu: vai mudar essa rotina louca de não ter tempo no Natal. "Para mim, está muito claro: quando vierem os netos, vai mudar tudo. Vou ter um tempinho no Natal para eles", planeja.

Em famílias cheias de bons velhinhos, não há tempo para a ceia de Natal

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.