Eles são do berço da arquitetura de SP. E querem mudar a cara do centro

Conhecidos como 'o povo da General Jardim', escritórios e instituições fazem da região sua base e têm projetos para revitalizar a área

Edison Veiga , Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

Profissionais. Há cerca de 20 escritórios na rua, como o Piratininga; lá também estão a Escola da Cidade e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)      

 

Na Rua General Jardim, no centro, nascem ideias que mudam a cara de São Paulo. Isso porque lá estão cerca de 20 dos principais escritórios de arquitetura da metrópole, além da faculdade Escola da Cidade, do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e do Instituto Pólis. Ficam na via os responsáveis pela repaginada planejada para a Biblioteca Mário de Andrade, pela garagem do Parque Trianon e pela Galeria Vermelho. No mundo dos arquitetos, essa turma é conhecida como "o povo da General Jardim".

O grupo transformou a área em sua base e, agora, quer revitalizar a degradada região. A Escola da Cidade encabeça essas propostas. Fundada em 2001, a faculdade conta com professores que são referência no mercado, como o designer e arquiteto Rafic Farah e José Armênio de Brito Cruz, do escritório Piratininga (eles também trabalham na General Jardim). E sua sede foi construída lá justamente para incentivar a retomada do centro.

"É nessa área que está a história paulistana e é importante que os alunos a entendam, saibam circular nela e pensem em melhorias", afirma o arquiteto Ciro Pirondi, diretor da Escola. "Ainda optamos por esse ponto porque o governo voltou a investir aqui, por já ser um berço de profissionais do meio e para impulsionar a retomada do centro."

Repaginação. Pirondi não fica só nas palavras: a faculdade já tem projetos encaminhados. "Queremos acabar com a degradação daqui e criar um centro de convívio", afirma. O plano mais ousado, idealizado por sete arquitetos que são professores e têm escritórios na área, pretende mudar o visual da General Jardim: seria proibido estacionar no acostamento; as calçadas seriam alargadas e teriam bancos; e seriam plantadas árvores. A Escola quer submeter tal proposta à Prefeitura até, no máximo, o segundo semestre deste ano.

Outra ideia é construir um prédio para seis escritórios de arquitetura e uma livraria especializada. "Já compramos o edifício e vamos nos instalar em meados de 2011", conta Pirondi. Há ainda um projeto de levar quatro institutos ligados a urbanismo para a rua, que já conta com o Pólis. Iriam, por exemplo, o Movimento Nossa São Paulo e o Ethos. "Será a Passagem da Cidadania."

História. Não é de agora que a região é berço da arquitetura. Está lá o primeiro curso paulistano da área, ministrado desde 1917 na Universidade Presbiteriana Mackenzie ? no começo, junto com Engenharia. "Nós demos essa vocação para a área", conta o professor Valter Caldana, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. "Muitos dos profissionais que estão por aqui se formaram no Mackenzie, são ou foram docentes ou trabalham com ex-alunos."

Caso do renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, de 81 anos, que se formou na universidade em 1954. Seu escritório é no prédio da IAB e, de sua prancheta, saíram a reforma da Pinacoteca do Estado e o Museu Brasileiro de Escultura.

Até os anos 1980, lá ficavam os principais escritórios de São Paulo. "Porém, o centro entrou em processo de degradação e os jovens passaram a fugir daqui", conta Caldana. Em meados da década de 1990, então, se viam poucas pranchetas na General Jardim. Segundo comerciantes locais, ali só havia "prostitutas e moradores de rua".

Retomada. Há 17 anos a "turma" redescobriu o potencial da área. O pioneiro foi o escritório Piratininga, responsável pela reforma da Biblioteca Mário de Andrade. "Fizemos o projeto de revitalização do prédio onde estamos e o dono nos convidou para vir para cá", diz José Armênio de Brito Cruz, sócio da empresa na qual trabalham 25 arquitetos.

"Sabíamos que era uma boa sair do Itaim e montar a sede no centro, que estava sendo revitalizado e que condizia com o tipo de projeto que fazemos." Cruz espalhou entre os colegas a ideia de reocupar a General Jardim. "Voltamos aos poucos, houve um boom há uns cinco anos e hoje há seis escritórios só no prédio onde ficamos."

É consenso entre os arquitetos: o "povo da General" cresceu e promete tomar ainda mais a rua. O que atrai esse pessoal? Há outros fatores além da retomada do centro. "É uma região barata e com uma infraestrutura adequada", diz o arquiteto Marcio Mazza, vice-presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura. "E o pessoal também é atraído pelo "clubinho" formado ali. O "povo da General" tem ideias parecidas, com foco na junção entre público e privado, compartilha experiências."

"Arquitetos com trabalhos muito comerciais não poderiam vir para cá", opina Pirondi, diretor da Escola da Cidade. "Eles precisam de um ambiente como o Jardins, atraente para a clientela de empresários e executivos."

Os escritórios jovens ainda se empolgaram em ficar na General pela possibilidade de se associar com os arquitetos mais experientes que se tornaram seus vizinhos. "Ajudou a nos aproximar do Paulo Mendes da Rocha, com quem temos várias parcerias", conta Martin Corullon, do Metro ? um dos que gravitam em torno do arquiteto conhecido entre os seus como "Paulinho".

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