Eles recuperaram R$ 5,3 milhões para SP

Indignados com vereadores de 1992 que aumentaram o próprio salário, Rosemary, Paulo e Raymundo entraram com ação na Justiça. Dezenove anos depois, ganharam

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2011 | 00h00

Três vizinhos aposentados do City Boaçava, na zona oeste de São Paulo, foram surpreendidos na semana passada com a condenação de 55 ex-vereadores na Justiça. Mais surpresos eles ficaram quando emissoras de TV, parentes, amigos e conhecidos de fora da cidade começaram a procurá-los por causa da notícia.

O advogado Raymundo Medeiros, de 74 anos, Rosemary Minson, de 70, ex-secretária do Colégio Santa Cruz, e o comerciante Paulo de Oliveira, de 74, foram os responsáveis pela ação civil pública que obrigou parlamentares de 1992 a devolver R$ 5,3 milhões aos cofres da Câmara Municipal. Bem antes dessa ação, porém, o trio já batia à porta de autoridades e dos tribunais como representantes da Sociedade Amigos do Boaçava.

"Como todo mundo acha impossível ganhar ação contra aumento de político, as pessoas querem saber quem nós somos. É o vigia que para você na caminhada, é o primo da Bahia que não te vê há 20 anos e liga à noite. Nunca vi mobilização nossa gerar tanta repercussão", conta Medeiros. Ele e os dois vizinhos também são coordenadores do Projeto Ficha Limpa em São Paulo.

O que as pessoas perguntam a todo momento é sobre a vitória judicial que abalou o Legislativo. Com modéstia fora do comum, eles relatam que foi na associação do bairro que se organizaram para mover o processo. O objetivo era contestar a legalidade do reajuste de 72% dado pela Câmara aos vereadores no início de 1992. "Passei anos sem nem lembrar disso. Mas o resultado fez compensar a espera em dobro. Deu motivação extra a nosso trabalho no Ficha Limpa", conta Rosemary.

Descendente de ingleses, ela foi liderança ativa nas mobilizações populares da Igreja Católica nos anos 1970 na capital. "Com d. Paulo (Evaristo Arns, arcebispo benemérito de São Paulo), aprendemos a chegar às autoridades por escalas. Precisamos ter paciência nas reuniões com assessores. Esses encontros são necessários para alcançar prefeito ou governador", acrescenta. Ela tenta segurar seu vizinho Medeiros, que quer a todo custo começar a contar detalhes do polêmico processo contra os vereadores.

Um dos primeiros moradores do Boaçava, Medeiros levantou a questão do aumento no meio de uma reunião da associação. Era noite quente de 17 de outubro de 1992 e o tema em debate era a campanha pela criação do Parque Villa-Lobos, no antigo lixão da Ceagesp. Mas o advogado enveredou a discussão para a política ao perguntar por que só o vereador Francisco Whitaker, ex-PT, tinha aberto mão do reajuste na Câmara.

Um dos presentes resolveu ligar para Whitaker no meio da reunião. "Ele estava desolado. Contou que estava sem apoio da sua bancada e do presidente do partido, que era o Lula", lembra Medeiros. A versão do vereador causou imediata indignação. Na semana seguinte, os três vizinhos começaram a levantar assinaturas em repúdio ao reajuste. Dois meses depois, o trio ingressou com ação na Justiça, que só começou a tramitar em 1994. A meta era obrigar os parlamentares a devolver a diferença entre o antigo salário e o reajuste. O valor resgatado na semana passada, 17 anos após o início do processo, é suficiente para construir 12 creches ou um novo parque de 40 mil metros quadrados.

Conquistas. Os três fundadores da Sociedade de Amigos do Boaçava se reúnem todas as semanas há 39 anos. No momento, eles batem de casa em casa para divulgar o Ficha Limpa na zona norte. "Visitamos bairros na periferia para falar da importância do Ficha Limpa dentro da política nacional", conta Oliveira, o mais quieto do grupo. "Já tive de falar muito sobre essa ação nos últimos dias, estou até cansado."

A mobilização dos vizinhos dentro de uma associação trouxe melhorias significativas ao Alto de Pinheiros, uma áreas mais arborizadas e nobres da capital. Se o bairro é hoje quase um oásis no meio da metrópole, muito se deve ao trabalho dos três aposentados. O asfalto nem tinha chegado ao City Boaçava quando Medeiros, Rosemary e Oliveira fundaram a associação do bairro.

A luta dos proprietários naquele abril de 1972 era por uma rede de esgoto. Foi a batalha de "inauguração" da entidade. Foram quase quatro anos de espera até representantes da associação serem recebidos pelo então prefeito Olavo Setubal. Moradores conseguiram do prefeito não só o esgoto como a ampliação da energia elétrica no bairro e a reposição de árvores destruídas por cupins.

Mas a mais importante conquista, na avaliação do grupo, foi o Parque Villa-Lobos. "O governador Franco Montoro tinha decidido que seriam construídos conjuntos habitacionais no lixão da Ceagesp. Nós fizemos um abaixo-assinado e conseguimos uma audiência com ele. Um mês depois, Montoro passou a estudar a ideia do parque", recorda Oliveira. Em 1994, o Villa-Lobos foi inaugurado. Com a presença do trio, claro.

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