"Eles queriam a loja e não a gente", conta refém

Bandidos planejavam roubar uma empresa de valores de São José dos Campos; para isso fizeram sete reféns

Simone Menocchi, O Estado de S. Paulo

03 de janeiro de 2008 | 16h46

"Desde o começo eles foram categóricos, queriam a loja e não a gente". Foi assim que o comerciante Cláudio Tadeu de Souza começou a relatar as horas vividas ao lado da quadrilha que o seqüestrou na tarde do primeiro dia do ano. Tudo começou com um pedido de socorro. Cláudio, dono de uma loja de radiadores, estava em casa quando o celular tocou e um suposto cliente pediu que ele socorresse o veículo no início da rodovia dos Tamoios.   "Avisei o Joel que iria socorrer o carro e fui até lá, enquanto meu sócio ficou me esperando na loja, que naquele dia estava fechada", disse referindo-se ao sócio Joel Resende Seixas. Ao chegar no local combinado para o socorro mecânico, Cláudio foi avisado de que se tratava de um seqüestro. "Disseram que não queriam nenhum de nós, mas precisavam da loja para roubar a empresa de transporte de valores".   Cláudio foi forçado a dirigir o próprio carro até a loja e abrir o estabelecimento. Outras pessoas da quadrilha chegaram à loja na mesma tarde e os dois comerciantes ficaram reféns. "Eles pediam o tempo todo que a gente colaborasse, ficasse de cabeça baixa e não fizesse alarde". Cláudio, a esposa e o filho de 3 anos foram mantidos reféns durante a noite do dia 1º na própria casa, onde também estavam um amigo do comerciante e o filho de seis anos, além do sócio e da mulher. "Passamos a noite com alguns deles em casa e no dia seguinte nos levaram pra chácara em Jacareí em uma Kombi".   Os sete ficaram no mesmo cômodo onde havia colchões, travesseiros, comida e até uma televisão. "Não deixaram faltar nada, deram bala para as crianças e nos deixavam ir ao banheiro com privacidade". Os homens tinham que ir ao banheiro de porta aberta e as mulheres podiam fechar a porta, segundo eles. "As crianças chegaram a brincar na tarde do dia dois com filhotes de cachorros que estavam na casa e acho que meu filho, pelo menos, de três anos, nem percebeu o que estava acontecendo".   O pior momento, desde a abordagem na rodovia, foi quando tive que ir acompanhado até a loja para levar lanche para as pessoas que lá faziam o buraco". Os homens comeram pães com mortadela e tomaram refrigerante. "Depois me levaram de volta pra chácara". Os vizinhos viram quando Cláudio chegou à loja acompanhado de uma pessoa estranha. No tempo em que ficaram no cativeiro as vítimas escutavam barulho de carros entrando e saindo e de pessoas conversando.   "A maioria escondia o rosto com capuz, boné, óculos e havia muita gente, não sei precisar quantos". Foi por causa do silêncio que se instalou na chácara no início da madrugada do dia 3 de janeiro que as vítimas perceberam que a quadrilha havia abandonado o local. "Saíram gritando que em quinze minutos viriam nos buscar, mas o tempo foi passando e percebemos que não havia mais ninguém na chácara. Foi quando bateram na nossa porta. Era o dono do imóvel que também tinha sido seqüestrado", relatou Cláudio.   O grupo estava na chácara desde o dia 24 de dezembro onde o dono, segundo Cláudio, também tinha sido feito refém. "Foi ele que bateu na porta do quarto onde estávamos e se apresentou como dono da chácara. Contou que também tinha sido seqüestrado e que deveríamos chamar a polícia. Disse assim: acho que todo mundo foi embora". As vítimas então esperaram por vinte minutos para ter certeza de que o grupo não voltaria e então seguiram para Jacareí onde procuraram a polícia militar.   Os dois carros dos comerciantes estavam no quintal da chácara, com a chave no contato. "Havia também uma van roubada, que acreditamos, seria usada para o transporte da quadrilha". Segundo Cláudio além do dono da chácara, também estavam na propriedade, mantidos reféns, o motorista da van roubada e um marceneiro, que teve os equipamentos roubados.   Visivelmente abalado Joel, o outro sócio, não quis falar muito com a imprensa. "A polícia me orientou a não dizer nada, tudo já passou, já acabou". Joel estava na loja, que ficou fechada durante todo dia. "Eles sabem onde eu moro, não quero dizer nada", disse, referindo-se aos ladrões.   Apesar do susto os dois comerciantes disseram que agora vão dar continuidade ao negócio. "Bagunçaram tudo, fizeram muita sujeira, mas precisamos da loja para viver. É dali que sai nosso ganha pão então não tem escolha, vamos voltar a trabalhar sim", afirmou Cláudio, dando graças a Deus por ninguém ter ficado ferido. "Nem ameaça com arma na cabeça fizeram. Eram muito profissionais, não nos ameaçaram em nenhum momento".

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