Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Eles fazem a diferença no dia a dia do Samu

Atendimento telefônico do serviço de emergência da capital é feito atualmente apenas por portadores de deficiência física - muitos já socorridos pelo 192

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2011 | 00h00

As cerca de 9 mil chamadas recebidas diariamente pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), no 192, passam por pouco mais de 130 atendentes que sabem como é viver a vida com limitações físicas. Acidentes, tiros e deformidades congênitas ajudaram a dar a eles a sensibilidade necessária para se colocar no lugar do outro e entender o sofrimento de quem precisa de auxílio em uma emergência.

Todos os atendentes do Samu na capital são portadores de algum tipo de deficiência física. Em 200 horas de treinamento, eles receberam noções de atendimento pré-hospitalar e informações sobre um programa que os ajuda a definir a gravidade da situação. O diferencial está na forma como os portadores de deficiência evitam descartar os chamados. "Eles têm identificação maior com os problemas dos outros. Sentem-se úteis em poder auxiliar quem necessita de ajuda e, por isso, são mais atenciosos", diz Domingos Guilherme Napoli, coordenador do serviço na capital.

Após definir a gravidade do problema, o atendente repassa a ligação ao setor de despacho, que também conta com portadores de deficiência. Eles então deixam a decisão de mandar ou não ambulância ao local para um médico regulador, que responde legalmente por uma eventual decisão equivocada. "A palavra final é sempre de um médico", explica Napoli.

Nos fundos do segundo andar do prédio do Samu, na Rua Jaraguá, Bom Retiro, os chamados são constantes. O ritmo dos atendentes é frenético e toda ligação é vista como questão de vida ou morte, até se saber o que de fato está acontecendo do outro lado da linha. "Coloque um pano limpo sobre o ferimento para estancar o sangue", "veja se ele está respirando" e uma série de outras frases expõem a tensão diária. Cadeiras de roda e teclados adaptados dão mostra de que ali trabalham pessoas com necessidades especiais, embora nem sempre a deficiência física do atendente seja visível.

Há pouco mais de um mês no Samu, Verônica Miranda de França, de 31 anos, diz que ali não se sente diferente. "Às vezes, na rua, parece que somos de outro mundo. As pessoas olham com pena. Aqui ninguém é bonzinho demais por ser deficiente e isso é muito bom."

Verônica foi atropelada há sete anos, quando tirava o carro do marido da garagem, e perdeu o movimento das pernas. "Senti que elas murcharam na hora e não andaria mais." Chegou a pensar que nunca sairia da cama. "Mas vi no Teleton (programa do SBT) uma moça que trabalhava e tocava a vida, mesmo sendo portadora de deficiência. Decidi que poderia ser daquele jeito."

Antes do Samu, Verônica trabalhou em dois empregos. No atendimento das emergências, identifica-se com algumas situações. "Ontem fui me transferir da cadeira de rodas para a do banho e caí. Cheguei para trabalhar e ligou um rapaz na mesma situação. Soube exatamente como ele se sentia. Embora, no fundo, não seja preciso estar nessa condição para ser atencioso. Basta ser sensível ao drama do outro."

Trotes. Nem todos, porém, são. Os trotes no Samu chegam a 30% do total de ligações, o que dificulta o serviço e pode impedir que quem realmente precisa de ajuda seja atendido. "São crianças fazendo brincadeiras ou pessoas que ligam para passar cantada nas atendentes", diz Napoli.

Apenas 30% das ligações são realmente assunto do Samu e, das 9 mil chamadas diárias, apenas 1.200 causam deslocamento das 120 ambulâncias, espalhadas em 70 bases pelo Município.

O perfil das chamadas varia segundo a hora. "No início do dia, atendemos muitos casos de gente que morreu dormindo. E de acidentes, porque é quando as pessoas vão para o serviço. O horário crítico é o fim da manhã", diz Napoli. Traumas, no entanto, respondem por apenas 20% dos atendimentos. "O grosso são crises hipertensivas e diabéticas, pessoas que passam mal, têm AVC (acidente vascular cerebral), derrame, enfarte."

"Foram seis tiros - três me acertaram, um nas costas", lembra Vinícius Oliveira da Silva, de 27 anos, baleado há seis durante briga na formatura do irmão. Após o tiroteio, foi atendido pelo Samu, onde trabalha hoje. Ele diz que as ocorrências que mais o deixam ansioso envolvem crianças. "Muitas vezes a criança está engasgada e precisa de ajuda rápida."

Preparo. Cleber Ribas, de 24 anos, tem má-formação congênita que provoca encurtamento dos membros. Seu teclado está adaptado à altura de seus ombros, de onde saem as mãos. Ágil, ele digita com facilidade enquanto escuta o pedido do outro lado da linha. "Moro sozinho, jogo videogame, estou no terceiro semestre de Administração e consigo viver plenamente." Só se sentiu impotente durante uma chamada ao Samu. "Foi uma parada cardíaca. A solicitante ligou, passei as recomendações, mas, no meio da conversa, ela disse que não precisava mais. O marido tinha acabado de morrer. Tem de estar preparado para isso também."

O salário médio dos telefonistas auxiliares de regulação médica, como são chamados os atendentes, é de R$ 846. Eles trabalham seis horas diárias e têm folga a cada seis dias. Terceirizado, o grupo é contratado pela Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência (Avape).

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