Eles ajudarão a fazer a Copa mais segura

Tenente-coronel e major da PM são os responsáveis por exportar para outros Estados e até países o know-how que conquistaram em estádios de futebol de SP

Fabio Mazzitelli, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2011 | 00h00

Um é especialista em policiamento das áreas externas de praças esportivas, com tese de doutorado sobre o tema. Outro é a principal referência em policiamento nos estádios de futebol de São Paulo, com duas Copas do Mundo nas costas. Juntos, o tenente-coronel Carlos Celso Savioli, de 49 anos, e o major Leandro Pavani Agostini, de 47, estão levando o 2.º Batalhão de Polícia de Choque da Polícia Militar paulista a exportar o know-how conquistado em estádios de futebol da cidade a pessoas de outros Estados e até de fora do País.

Com a proximidade da Copa do Mundo do Brasil, o curso de policiamento em eventos para oficiais, comandado por Savioli e coordenado por Agostini, passou a reservar uma em cada quatro vagas para militares de outras partes do Brasil: das 35 vagas possíveis, até dez são destinadas a oficiais de corporações de outros Estados. Para a próxima edição, prevista para ocorrer entre 8 e 26 de agosto, quatro cadeiras já estão reservadas para policiais militares de Pernambuco. "Nos últimos cursos, recebemos oficiais de Amazonas, Mato Grosso e Ceará. Mesmo Estados que não têm cidade-sede do Mundial estão interessados. É um evento que vai mexer com o Brasil inteiro", diz Savioli. "Neste ano, recebemos visita também de policiais do Uruguai, interessados em nosso trabalho", orgulha-se.

Tradição. Especializada em policiamento em eventos, o 2.º Batalhão de Choque da PM paulista se tornou referência. Criado dois anos depois da Revolução Constitucionalista de 1932 como uma divisão de reserva para ficar à disposição do governador do Estado e atuar no controle de eventuais tumultos, o batalhão estreou em campos de futebol com 207 homens, em julho de 1934, em um jogo do Palmeiras, na época Palestra Itália, no Estádio do Parque Antártica, na zona oeste da cidade.

Hoje o batalhão tem cerca de 600 policiais e marca presença em todas as partidas de futebol profissional realizadas na capital. Para grandes jogos, como a decisão da Copa Libertadores entre Santos e Peñarol no Pacaembu, no mês passado, o batalhão destaca até 250 homens.

"Em 77 anos de história, criamos uma cultura de estádio que passa de policial para policial. Lá dentro você sente aqueles torcedores como se fossem uma só pessoa. Reagem da mesma maneira. Até por isso, o policial precisa estar atento ao jogo, olhar para a partida também. Isso influencia o comportamento daquelas pessoas", ensina o tenente-coronel.

Filho de um coronel da PM, Savioli entrou na corporação aos 19 anos. Em 2009, credenciou-se para comandar o batalhão após concluir tese de doutorado sobre estratégias de policiamento nas áreas externas dos estádios no Centro de Aperfeiçoamento e Estudos Superiores (Caes) da PM.

No comando do batalhão, confessa que faz uma contagem informal do tempo em que não estoura uma briga nos estádios paulistanos, como se tivesse na cabeça uma daquelas placas que registram há quantos dias não acontece um acidente em uma obra. "A última vez foi em um Corinthians e São Paulo no Morumbi, em setembro de 2009. São dois anos", diz. "Quando a gente é obrigado a tomar uma atitude repressiva, é motivo de aborrecimento. Fico até doente."

Palestras. Sob o comando de Savioli, o curso, que surgiu para aprimorar a formação de oficiais para atuar nos estádios paulistas, passou por uma adequação curricular feita especificamente para a Copa. A mudança usou como base a experiência do major Leandro Agostini, que trabalhou nos Mundiais de 2002, Japão-Coreia, e de 2010, na África do Sul. "Nessas adaptações, inserimos matérias sobre o perfil do público em eventos internacionais e outras mudanças, como um comparativo da legislação nos eventos da Fifa."

Integrante do comitê paulista para a organização da Copa de 2014, o major foi o responsável pela elaboração do programa paulista de segurança para o evento, concluído em julho do ano passado. Isso foi pouco depois de voltar do Mundial da África, onde atuou como observador oficial. Em 2002, viajou em um intercâmbio oficial com a polícia nacional japonesa. "Como preparamos com uma certa antecedência o programa paulista, ele está servindo de modelo para outros Estados."

Desde 2009, segundo o major, foram dezenas de palestras em seminários e encontros, alguns deles promovidos pelo Ministério da Justiça. Só neste ano foram sete palestras, quatro em Brasília e três no Rio, onde na próxima quarta-feira vai participar de outro seminário sobre grandes eventos, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Na PM desde os 21 anos, o major também lembra dos dois anos sem tumultos nos estádios paulistanos e, como todos no batalhão, orgulha-se disso. "Gosto de futebol e gosto muito do meu trabalho. Hoje digo que se pode levar a família a um estádio."

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