Eles ainda mandam cartões de Natal

Para quem acha e-mail impessoal, papel e correio continuam sendo solução para desejar boas festas

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h07

Caneta, papel, feliz Natal e um próspero ano-novo. Essa é uma combinação que resiste ao tempo nas mãos de quem prefere os cartões tradicionais e vê impessoalidade nos e-mails. Mais do que saudosistas, são pessoas que apreciam a sensação de enviar uma correspondência pelo correio, uma forma de demonstrar que se gastou um tempo cada vez mais precioso para desejar tudo de bom durante as festas.

A produtora Lívia Fusco, de 29 anos, descreve-se como uma pessoa que gosta de "coisas antigas". É nesse contexto que os cartões de Natal fazem parte de seu fim de ano há muito tempo. "Como fiz intercâmbio, sempre mando os cartões para meus amigos de fora. São mais ou menos uns 30 que envio em dezembro."

Lívia reserva um tempo especial para complementar as mensagens já impressas nos cartões com desejos de felicidade escritos com a própria letra. "Tem de ser durante um fim de semana para fazer isso." E é retribuída? "Recebo de volta só uns dois por ano."

Embora aprecie o contato com o papel, o computador não é deixado de lado pela produtora. "Uso para fazer as etiquetinhas com os endereços que vão nos envelopes." E, pela internet, ela pergunta aos amigos se continuam morando no mesmo local do ano anterior.

Graça. O aposentado Nelson Hatanaka, de 62 anos, brinca dizendo que é um "troglodita" quando se trata de internet e tecnologia. Para ele, o e-mail pode até ser prático, mas é algo muito impessoal. "Você pode fazer a mesma mensagem e mandar para todo mundo. Qual a graça?"

Enquanto escolhia na loja os cartões que vai mandar neste ano, Nelson contou que escreve as mensagens quando vem a insônia. "Vai do dia em que estou sem sono. Daí, sento e escrevo um por um os cartões", conta. Segundo o aposentado, "ainda existe um pessoal educado que retribui", também enviando cartões de Natal de volta.

Em uma sacolinha, porém, ele carregava pastas com etiquetas para colar nos envelopes. Todas com o seu endereço. Da mesma forma que a produtora, esse é o pedacinho do mundo digital que invade a fantasia do papel.

O advogado Joaquim de Antonio, de 66 anos, passeava com a família na última quinta-feira pela Avenida Paulista. Ele aproveitava os momentos de folga para tirar fotos da mulher com um presépio ao fundo e contou que os cartões de papel são parte fundamental do "espírito natalino". "Infelizmente, parece que isso está acabando. Mas eu respondo a todos que recebo."

O cartão também desperta romantismo - mesmo em quem não é destinatário dos desejos de boas festas. "Outro dia, um senhor de uns 60 anos passou por aqui e disse que, há 38 anos, entrega cartões de Natal para a mulher. É tão bonito esse tipo de coisa", diz Suderlândia Silva, de 34 anos, atendente de um quiosque que vende cartões.

Luxo. Cartão de Natal também é glamouroso e não sai de moda. Essa é a opinião do estilista Audifax Seabra, de 40 anos, que não troca o papel pelo e-mail na hora de demonstrar os sentimentos.

Ele conta que manuscritos fazem parte de sua rotina ao longo do ano. Todos os vestidos de noiva que idealiza seguem para as compradoras com palavras escritas em bilhetes. E não poderia ser diferente com os cartões de Natal - que envia para clientes e amigos todos os anos. "É insubstituível. O cartão materializa seu desejo de boas festas", afirma. "O que antes era o trivial hoje é o diferente. O cartão é vintage. Isso é o caro, é o luxo atualmente."

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