Eles acham tempo para melhorar a vida em SP

De passeios com cães do CCZ a brincadeiras com crianças doentes, a rotina de 4 voluntários de serviços públicos da cidade mostra que ser solidário compensa

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2011 | 00h00

Em São Paulo, ninguém tem tempo para nada. Mas há quem consiga encontrar espaço nas atividades do dia a dia para ajudar os outros e ganhar sorrisos, carinho ou simplesmente a satisfação por ter feito o melhor, sem cobrar nada por isso. Entre os voluntários espalhados pela capital paulista estão 735 pessoas de um programa da Secretaria Municipal de Saúde que ajudam como podem de crianças e idosos a animais do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ).

O programa "Voluntários da Saúde", coordenado pela secretaria, foi premiado internacionalmente no ano passado, durante o Encontro Sul-Americano de Recursos Humanos. Quase a totalidade dos participantes é formada por mulheres (90%), três quartos já passaram dos 40 anos e 60% dessas pessoas têm o ensino médio como escolaridade.

A cabeleireira Kelly Lopes de Souza, de 35 anos, é uma delas. Pelo menos três vezes por semana, ela troca o salão de beleza por "lambidas" de satisfação. É assim que os cães do CCZ agradecem cuidados e passeios desde dezembro de 2009, quando ela se tornou voluntária. "Costumo dizer que eu sou do setor de paparicação. Cachorro quer atenção. Eles ficam carentes enquanto não são adotados. Antes de ir embora, coloco cobertor, roupinha, principalmente agora no inverno", afirma. "É uma terapia. Aqui não fico nervosa. Descarrego tudo. A cada lambida, esqueço alguma bronca que recebi no meu serviço."

Não são apenas os animais que ganham com o trabalho voluntário. A estudante Angélica Maria Barbosa Camerino, de 25 anos, trocou o curso de Educação Física por Enfermagem e buscou no contato com as crianças a satisfação de que tanto precisava. É na brinquedoteca do Hospital Municipal Artur Ribeiro de Saboya, no Jabaquara, que ela se realiza duas vezes por semana. "Só pelo fato de amenizar os problemas das crianças já me sinto feliz. Elas sofrem muito, ficam ansiosas, chegam com uma carinha triste, às vezes até com fraturas. A gente tenta ajudar. Fico feliz por gastar o meu tempo investindo em outras vidas."

Quem chega antes das 7 horas das quintas-feiras ao prédio do Atendimento Médico Ambulatorial (AMA) Fábio Gianotti, no Ipiranga, encontra Carmela Aparecida Rossatti, de 53 anos, abrindo as portas da unidade, bem disposta e falante. Ela conversa, orienta, tranquiliza e faz amigos durante toda a manhã. "Os pacientes chegam tensos. Falo que aquilo não é nada, que já fiz o exame que eles vão fazer, que já passei pela experiência. Tem de dar uma quebrada no ambiente, que é de dor. É preciso trazer alegria."

Os preconceitos se perderam no tempo, mais precisamente em 12 anos de voluntariado ativo e constante. Com diploma de Magistério, a hoje aposentada Rosa Marina Antunes e Silva, de 61 anos, foi convidada por assistentes sociais no fim dos anos 1990 para conversar com pacientes soropositivos acamados. Hoje faz bem mais que isso no Serviço de Atendimento DST/Aids da Vila Prudente.

Rosa Marina participa de um coral para animar pacientes, conta histórias e dá oficina de artesanato. Criou um vínculo que vai além do tempo doado. "Com a gente, eles conseguem falar o que não falam nem para a família. Já fui em casamento e batizado de pacientes. A primeira menina que conheci estava bem ruinzinha, era bem nova, mas acabou morrendo. Não esqueço do que ela disse um dia. Ela falou que, se tivesse conhecido a gente anteriormente, a vida dela teria sido bem diferente."

Desafios. Um dos desafios é convencer quem frequenta a faculdade a investir sua boa vontade no auxílio ao próximo. "Nos Estados Unidos, 80% dos voluntários são universitários. Queremos que eles venham não só para cumprir um simples estágio, mas que participem e se envolvam pela importância da atividade em si", afirma a gerente de Desenvolvimento de Projetos da pasta, Cláudia de Crescenzo.

Segundo Cláudia, o interessado em colaborar voluntariamente não pode exercer atividade relacionada diretamente à sua profissão, porque isso envolveria acesso a informações restritas do paciente. Se é médico, não pode exercer a Medicina no programa de voluntariado. "Mas ele pode ser contador de história, brinquedista, visitar leitos, fazer atividades lúdicas em grupos e oficinas."

O trabalho voluntário não é remunerado nem cria qualquer tipo de obrigação trabalhista por parte do serviço público. Informações podem ser conseguidas na unidade de interesse ou mais perto de casa.

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