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Fernando Reinach
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Eles abandonaram o paraíso

O lugar é lindo, a comida, abundante, o ambiente cultural efervescente. Um verdadeiro paraíso. Mas um belo dia, como se decidissem que não valia mais a pena viver ali, os habitantes resolvem partir. O ano, 1285, o local, Mesa Verde.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2015 | 03h00

Quem visita Mesa Verde fica boquiaberto. Vilas inteiras encravadas nas encostas verticais de imensas montanhas. No platô acima e no vale logo abaixo, a vegetação é abundante. A vista das casas é maravilhosa. O local é seguro. Acesso, só com escadas de madeira. Este local, que fica onde hoje os Estados de Utah, Colorado, Arizona e Novo México se juntam, foi ocupado por uma população de agricultores por volta dos anos 600. Esse paraíso foi abandonado abruptamente 700 anos depois, por volta de 1285. E nunca mais foi habitado. Os descendentes dessa população vivem até hoje no sul do Novo México, não estão extintos, somente se mudaram. Em 1996, quando visitei o parque nacional de Mesa Verde, ninguém sabia o que tinha acontecido. Agora esse enigma foi parcialmente esclarecido.

Três linhas de investigação contribuíram para desvendar o mistério. A primeira foi um mapeamento das datas em que as construções foram erguidas. Isso foi possível analisando os anéis de crescimento nos troncos usados nas construções. Essa sequência temporal permitiu mapear cada casa e cada reforma com precisão de alguns anos. A segunda linha de investigação foi a identificação de todas as 18 mil ruínas espalhadas pela região. A data de construção de cada sítio arqueológico e sua posição foi relacionada ao padrão climático. A partir desses dados, foi possível calcular não só a população a cada ano, mas a quantidade de comida produzida. A terceira linha de investigação foi a análise dos esqueletos enterrados em cada década. Analisando os esqueletos é possível estimar o nível de violência. Juntando todos esses dados, os cientistas tentaram reconstruir o que aconteceu durante os 700 anos em que seres humanos habitaram Mesa Verde. 

Durante os primeiros 400 anos, até aproximadamente o ano 1000, os habitantes viviam nos platôs em construções simples, próximas dos campos cultivados. Nesse período, a população cresceu de 5 mil para 7 mil pessoas e a violência praticamente não existia. Os esqueletos não mostram sinais de agressão. Nos anos seguintes, a população explodiu para 30 mil habitantes e foi possível detectar grandes flutuações no tamanho da população. Essa flutuação parece estar correlacionada a períodos de grandes secas e chuvas abundantes. Foi nessa época que a população deixou as casas simples, próximas das plantações, e construiu as vilas incrustadas nos penhascos. Nesse período aumenta o número de esqueletos que sofreram morte violenta.

A maior cidade de Mesa Verde se localiza em um local mais alto, onde os estudos climáticos demonstram que as secas periódicas são menos frequentes, talvez a única região capaz de produzir alimentos nos anos de seca e provavelmente a mais disputada. Tudo indica que o meio ambiente local não foi capaz de suportar a população que aumentava rapidamente. Talvez surtos de fome, provocados pelas secas, tenham contribuído para o aumento da violência e para a construção de vilas fortificadas nas laterais das montanhas. Esse processo atinge um pico em 1270, quando ocorre uma grande seca. Nos 15 anos seguintes, a população abandona a região. 

A conclusão é que o aumento de população, práticas agrícolas não sustentáveis e flutuações climáticas geraram instabilidade social, violência e a construção de cidades protegidas. Chegou um momento em que a tensão foi demais. E a migração em massa começou. O paraíso que era Mesa Verde tinha se transformado em um inferno.

Esse fenômeno migratório, que aconteceu muito antes da descoberta da América pelos europeus, não é muito diferente do que estamos observando na Europa e na África de hoje. Diversos paraísos ao redor do planeta estão se transformando em infernos. E por razões não muito diferentes. Mas, se a Terra toda se transformar em um inferno, não teremos para onde ir.

MAIS INFORMAÇÕES: AND THEN WERE NONE. NATURE VOL. 527 PAG. 26 2015

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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