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Fernando Reinach
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Elefantes: liderança hereditária

Elefantes se organizam em grupos sociais. Cada grupo é liderado por uma fêmea mais velha. É ela que marcha na frente, guiando o grupo para novas pastagens e fontes de água. Essas fêmeas adquirem experiência ao longo da vida. São a memória do grupo. As fêmeas mais velhas também são responsáveis por manter a coesão entre os diferentes grupos de elefantes, evitando conflitos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2016 | 02h03

Desde junho de 2012, depois de décadas de trégua, caçadores voltaram matar elefantes nas reservas de Samburu e Buffalo Springs, no Quênia. Como estão atrás do marfim, e as maiores presas estão em animais idosos, as anciãs têm sido massacradas. Essa tragédia permitiu aos pesquisadores observar o que acontece quando os elefantes perdem suas líderes.

Essa população de elefantes vem sendo estudada desde 1998. Sua estrutura social foi determinada em três períodos distintos. No primeiro, entre 1998 e 2001, a comunidade crescia lentamente, mas a caça não ocorria. No período seguinte, entre 2001 e 2004, a comunidade cresceu rapidamente e também não havia caça. No terceiro período, entre 2012 e 2014, as fêmeas mais velhas foram sistematicamente mortas pelos caçadores. Os cientistas acompanharam todas as fêmeas, identificando cada uma delas.

Eram aproximadamente cem fêmeas, com idade média de 28 anos no primeiro período. Passaram a ser 125 no segundo período, a idade média diminuiu para 26 anos. No terceiro período, com a caça das anciãs, o número foi reduzido para 110 fêmeas, e a idade média para 21 anos. Durante esses 16 anos, 70% das fêmeas que existiam no grupo original morreram e foram substituídas. É como se todo um continente perdesse seus líderes.

Para estudar a estrutura social de cada grupo de elefantes os cientistas viajavam diariamente pelas estradas das reservas e coletavam dados de cada grupo encontrado. Em cada encontro eles identificavam cada membro do grupo e determinavam quem era a líder, a vice-líder, e assim por diante. Desse modo, foi possível saber quem liderava em cada momento, quando a líder morria, e como ocorria sua substituição. Esses dados foram analisados estatisticamente para entender as consequências da rápida substituição das líderes.

O que os cientistas observaram é surpreendente. Apesar de 70% da liderança ter sido exterminada, a estrutura social da população se manteve. A informação sobre as melhores áreas para pastar, o local das melhores fontes de água e a administração dos conflitos não se perdeu. Isso demonstra resiliência da rede de interação entre as fêmeas. O mais interessante é que os cientistas descobriram a razão. É simples. O que ocorreu nesses grupos de elefantes é que as filhas das anciãs passaram a ocupar o posto de liderança. O interessante é que a nova líder, quando a anciã morre, não é obrigatoriamente a fêmea mais velha, como seria esperado, mas a filha mais velha da antiga líder.

Esse resultado demonstra que desde cedo as filhas da anciã vão "aprendendo" ou sendo "educadas" para assumir a liderança, aprendendo o que é necessário para assumir essa função, e interagindo com as outras líderes, de modo a administrar os conflitos. Essa sucessão é tão bem organizada que os cientistas foram capazes de prever a futura líder mesmo antes da morte de uma anciã. É essa preparação das novas líderes que permite que as sociedades de elefantes não se desestruturem quando as líderes são exterminadas.

A conclusão é que entre os elefantes o processo de substituição de líderes é mais semelhante ao que observamos em empresas familiares (onde os filhos herdam a empresa) ou em sociedades onde há uma família real (onde todo o reino é herdado). Os cientistas não discutem o mérito e demérito dos métodos de substituição de líderes praticados pelos paquidermes e por diversos grupos de seres humanos. Mas não deixa de ser curioso que os elefantes estão longe de se organizar segundo critérios meritocráticos ou democráticos. Uma coisa é certa: as sociedades de elefantes são muito mais longevas e resilientes que as organizadas pelos seres humanos.

MAIS INFORMAÇÕES: VERTICAL TRANSMISSION OF SOCIAL ROLES DRIVES RESILIENCE TO POACHING IN ELEPHANT NETWORKS. CURR. BIOL. VOL. 26 PAG. 75 2016

*Fernando Reinach é biólogo

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