''Ele tentou empurrar a porta, mas conseguimos segurar''

Luciano Lourenço, Professor que estava na sala ao lado de onde começou a chacina

Márcia Vieira / RIO, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

O desafio é descomunal. Após o massacre de quinta-feira, quando Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, matou 12 crianças e feriu outras 12 na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, a missão dos professores é convencer os alunos de que o lugar é seguro. "Vamos ter de reinventar a escola", desabafa Luciano Lourenço, de 35 anos, professor de Geografia que estava na sala ao lado de onde começou o massacre.

Há cinco anos trabalhando no colégio, Luciano mora em Muriqui, a 60 quilômetros de Realengo. Nunca pensou em mudar para um colégio mais perto de casa. "Essa escola é tão boa de trabalhar que não peço transferência de jeito nenhum."

Como se reinventa a escola? Não sei. Nem sei o que dizer para que as crianças se convençam que a escola é um lugar seguro para elas. Vai ser um trabalho muito grande. Como profissional de educação, a gente não é preparado para lidar como uma situação dessas. A gente espera que a Secretaria de Educação possa fazer um trabalho de acompanhamento psicológico com professores para lidar com isso.

Os outros professores estão conseguindo superar o que o aconteceu?

Não. Muitos estão em estado de choque. Eu só consegui dormir depois de tomar calmante. Eu estou perdido. A vida tem de seguir em frente, a gente tem de encontrar um caminho para continuar. Não vai ser fácil. Mas nós somos muito unidos, nós adoramos a escola. Vamos conseguir.

A escola tem um histórico de violência?

Nada grave. A escola é tranquila. Os alunos têm problemas de indisciplina normais. Às vezes não fazem o dever de casa. Um aluno briga com outro por causa de namorada. Coisas bobas. Nunca teve nada de grave. Nunca precisamos chamar policial na escola. Às vezes, chamamos os pais para resolver algum problema. Mas tudo coisa normal de adolescente. O que aconteceu foi uma fatalidade.

O senhor estava na escola na hora da tragédia?

Eu estava na sala ao lado. Vi ele (o atirador) carregando as armas e indo para a sala fazer o primeiro disparo. Voltei para a minha sala correndo, fechei a porta para tentar evitar que ele entrasse. Os alunos me ajudaram a colocar as mesas e cadeiras atrás da porta. Ele ainda tentou empurrar a porta para entrar, mas conseguimos segurar. Ele foi então para a sala da frente. Quando foi recarregar o revólver, aproveitei para sair correndo e chamar ajuda. Ele ainda deu uns disparos, não sei se na minha direção.

O que faz essa escola ser tão especial para os professores e alunos?

O ambiente é bom de trabalhar. Nós parecemos uma família. Os pais participam. O entorno é tranquilo. O que aconteceu na quinta-feira foge completamente da lógica desse lugar. A gente não merecia.

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