Ele roda sem rumo pela cidade para escrever

"Vila Sabrina é só uma linha de ônibus, ô tigueis. Da Vila Maria até a Vila Galvão, em Guarulhos, depois da Infernão Dias, a imprensa chama tudo de Jardim Brasil." É assim, neste ritmo, neste falar, neste pulsar periferia paulistana, que a prosa de Jeosafá Fernandez Gonçalves se desenrola nos livros Era Uma Vez No Meu Bairro - Zona Norte e Era Uma Vez No Meu Bairro - Zona Leste, projeto que terá ainda as continuações Zona Sul, Zona Oeste e Centro.

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2011 | 03h04

Até 2013, os cinco títulos devem ser lançados pela editora Nova Alexandria. Zona Norte saiu primeiro dois anos atrás, em edição quase artesanal, bancada pelo autor. Vendeu 2 mil exemplares em 70 bancas paulistanas. "Ele nos propôs o projeto. Resolvemos relançar o primeiro e publicar a série toda", conta o editor Marco Haurélio.

Jeosafá vislumbra passo maior. Quer que os cinco livros virem filme, cuja produção já vem sendo preparada pelo cineasta João Luiz de Brito Neto, do cenário alternativo paulistano. "A forma que ele escreve é muito visual", comenta. "Fica fácil transpor do texto escrito para a linguagem cinematográfica."

"O céu, para os lados de Tucuruvi até o Horto Florestal, do Tremembé até Vila Albertina, do Jaçanã até Vila Nova Galvão, estava preto fosco no alto e cinza chumbo embaixo. O vento ia fechando o círculo de nuvens medonhas pela borda da Fernão Dias até a Vila Maria baixa." As narrativas denunciam a própria biografia de Jeosafá, paulistano nascido na periférica Vila Ede, zona norte, em 1963, tão apaixonado pela cidade que costuma pegar ônibus aleatoriamente, só para zanzar sem rumo, escrevendo no caminho.

Criação. Sua história tinha tudo para ser igual a de muitos meninos nascidos em família pobre. Tinha 11 irmãos, vivia em casa de madeira e sonhava em ser jogador de futebol. "Na várzea até que era bom. Mas nunca passei em peneira de time profissional", conta, resignado com o passado de "craque" em times obscuros do terrão.

Seu pai, João Gonçalves, era entregador de jornal das 4h30 às 8h e bancário das 9h em diante. "Nos fins de semana, trabalhava com ele. Meu primeiro emprego foi como jornaleiro", orgulha-se Jeosafá, que, por causa disso, pediu para ser fotografado ao lado da estátua Contando a Féria, obra de 1950 assinada pelo escultor Ricardo Cipicchia, que mostra um engraxate e um jornaleiro, na frente do Fórum João Mendes, no centro da capital. "Quando a gente entregava jornais nos Jardins, eu achava que estava em outro país, de tão diferente que era aquele ambiente do que eu estava acostumado."

Aos 14 anos, virou office-boy. Depois, arrumou trabalho em uma granja de frangos na Vila Medeiros, zona norte. Até os 18 anos, ainda foi mensageiro, vendedor de consórcio, vendedor de livros de porta em porta... "Este emprego foi bom, porque abriu minha cabeça para um universo que eu nunca imaginei", afirma. "Caíam na minha mão livros de grandes nomes da arquitetura e da arte. E eu lia." A paixão pela literatura, aliás, vem da infância. "Gostava de ler fábulas para minha mãe, enquanto ela lavava roupa", recorda-se.

Ensino médio - na época, colegial - concluído, nenhuma perspectiva como jogador de futebol, Jeosafá passou a viver de bicos. Por meio de um amigo presidente de escola de samba, resolveu compor um enredo. Perdeu a seletiva e não conseguiu representar a escola no carnaval. Então conheceu um povo ligado em cinema. Em 1984, virou faz-tudo no Cineclube do Bixiga - de office-boy a porteiro. De lá, acabou diretor do Cineclube Oscarito, da Praça Roosevelt.

Primeiras letras. A proximidade com o universo artístico o empolgou. Despertou nele o escritor adormecido. Em 1985, lançou seu primeiro livro, a coletânea de poemas punk Balada Para a Morte da Mosca. De lá para cá, dezenas de outros títulos foram lançados - como Dois Poetas Paulistanos, O Atirador de Facas, Poesia na Escola e Maria Sete Saias. "Ele é um autor que não perde a oportunidade de mostrar, em seus textos, os problemas sociais", analisa a professora da Universidade de São Paulo (USP) Alice Vieira. "E escreve muito bem."

Impulsionado pela paixão e incentivado pelos amigos, resolveu voltar a estudar, em 1988. Ingressou no curso de Letras da USP. Ainda durante a graduação, começou a carreira de professor em escolas particulares. Fez mestrado e doutorado. Mas nunca perdeu o contato com a periferia onde nasceu, nunca perdeu de vista o contexto social em sua produção literária.

Em 2006, foi convidado a dirigir a escola da Febem do Tatuapé. "Era o fim do mundo. Rebelião todos os dias. Pavoroso", lembra. No ano seguinte, tornou-se diretor de uma escola particular em Itaquera, na zona leste. De 2008 até o ano passado, atuou como consultor da Secretaria de Estado da Educação, selecionando os títulos que deveriam ser adotados pelas escolas públicas. Atualmente, Jeosafá vive do que escreve. "Também presto consultoria pedagógica para editoras e dou aula-espetáculo em escolas e outras instituições."

Para escrever a série de livros Era Uma Vez No Meu Bairro, debruçou-se sobre relatórios técnicos, livros e reportagens que tratam da violência em São Paulo. E entrevistou gente. E relembrou vivências pessoais na periferia. "Eu escrevo sobre São Paulo. Não imagino o que é escrever me despindo da condição desse caos diário", diz ele. "O que escrevo é o retrato de minha raiva e do carinho que tenho pela cidade." Cidade que ele redescobre cada vez que anda, sem rumo, pelo centro. Ou reencontra um velho amigo na periferia.

Apaixonado por SP, Jeosafá Fernandez Gonçalves se inspira no 'caos diário'

para fazer série sobre bairros paulistanos. Até 2013, tudo deve virar filme

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